20.3.10

barba cerrada e rabo entre as pernas, ressabiado feito um órfão
moreno e magro e azeitado por um janeiro lasso , materializado nas primeiras horas do dia
não posso sequer olhar pra tua cara, sei da tua aparência porque te adivinho já fazem anos
não olho lá, não ouso - fui despertada pelo apito fora de hora dessa merda de telefone e não tornei a dormir - escutei tua respiração no pesadelo, peso extra na asa, e deixei você perdido nele
porque o poder na hora era meu  
sem querer te livrar da mordida da serpente, do grito que não sai da boca, da nudez na sala de aula

não desejo mais ser tua mãe, e não serei. 
estou te oferecendo na roda das freiras, você volta quando quiser, quando crescer
posso já estar velha demais, ou ter morrido

detestei o presente que você não me deu, de boca aberta observo sua passada gigante igual salto com vara quando, por estar no ar, você comeu os segundos decisivos da tomada de consciência 
abertura de braços, amanteigamento do cotidiano
perdeu
estou te passando pra ciência, ela merece
não posso olhar na tua cara porque afinal 
meu medo é que você voltou


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