23.11.09
as palmadas que mamãe me deu
a superfície é chata pacas
tão normalmente aborrecida
chega de alucinações!
chega de química de mentirinha!
cansou
passou
deu
chega de sangue animal
chega de gordura requentada
chega de euforia sintética
faça durar
faça concentrar no cálculo do entalhe mínimo
do encaixe da madeira na solda metálica, do risco do nanquim
faça abrir bem os olhos, os dois juntos
os quatro juntos
faça sentir porejar o suor de toda água do dia inteiro no gargalo
faça farejar além adivinhando perfumes
faça sentir tudo de novo tudo que tava perdido
faça criar e saber o que fazer com a criação
faça forgiveness
o claro o transpirado o percorrido a mais o desejado sem descanso
o refeito só que melhor desta vez o retesado solto e correndo
faça o mais de trinta graus o mais de trinta anos
faça o sentir minha pele não é mais a mesma
o ir atrás o pegar no ar o bater claras em neve o deixar os velhos felizes, porra, eles merecem
eles são velhos já chega de encher o saco deles
faça encorpado faça boldness
o bem servido o até mais tarde o inteiro o sentir nos músculos
faça sangue no lençol
faça a fartura na medida
o preciso o firme
faça o lento todos os movimentos conscientes
e acelerando
faça o sem piscar
tão normalmente aborrecida
chega de alucinações!
chega de química de mentirinha!
cansou
passou
deu
chega de sangue animal
chega de gordura requentada
chega de euforia sintética
faça durar
faça concentrar no cálculo do entalhe mínimo
do encaixe da madeira na solda metálica, do risco do nanquim
faça abrir bem os olhos, os dois juntos
os quatro juntos
faça sentir porejar o suor de toda água do dia inteiro no gargalo
faça farejar além adivinhando perfumes
faça sentir tudo de novo tudo que tava perdido
faça criar e saber o que fazer com a criação
faça forgiveness
o claro o transpirado o percorrido a mais o desejado sem descanso
o refeito só que melhor desta vez o retesado solto e correndo
faça o mais de trinta graus o mais de trinta anos
faça o sentir minha pele não é mais a mesma
o ir atrás o pegar no ar o bater claras em neve o deixar os velhos felizes, porra, eles merecem
eles são velhos já chega de encher o saco deles
faça encorpado faça boldness
o bem servido o até mais tarde o inteiro o sentir nos músculos
faça sangue no lençol
faça a fartura na medida
o preciso o firme
faça o lento todos os movimentos conscientes
e acelerando
faça o sem piscar
22.11.09
De acordo com o que você me disse que não precisava embora eu ache que você queria era ouvir alguma resposta fosse ela qual fosse desde que fosse um não, não, deixa, isso vai por minha conta, isso sou eu que quero, eu que gosto assim mesmo, bom, de acordo com isso eu acho que foi uma delicadeza da sua parte foi sim, delicada e descompromissada sua colocação, não que não fosse procedente de fato eu estou me comportando como você bem frisou que eu não preciso mas vamos e convenhamos, era mais para puxar assunto.
- Ela não é uma louca, as pessoas fazem coisas
- Eu, por mim, tamos aí
Faz uma imagem melhor do tempo em volta, um panorama parecido com passeio de balão, longe mas não muito.
Porque você não cortou o cabelo? Passou fio dental, fez bochecho, mandou logo uma colherada de leite de magnésia pra ficar melhor e fez questão que eu soubesse. Aceitou uma miniatura de coisa, rejeitou outra.
Eu intrigo porque não tenho sua idade ainda pra saber a verdade, pela sutileza da resposta meio contida, meio querendo, que você trançou.
Rindo muito forte por dentro, segurando por fora.
Larguei tudo e você pra lá por 5 momentos. Faz mal não.
- Ela não é uma louca, as pessoas fazem coisas
- Eu, por mim, tamos aí
Faz uma imagem melhor do tempo em volta, um panorama parecido com passeio de balão, longe mas não muito.
Porque você não cortou o cabelo? Passou fio dental, fez bochecho, mandou logo uma colherada de leite de magnésia pra ficar melhor e fez questão que eu soubesse. Aceitou uma miniatura de coisa, rejeitou outra.
Eu intrigo porque não tenho sua idade ainda pra saber a verdade, pela sutileza da resposta meio contida, meio querendo, que você trançou.
Rindo muito forte por dentro, segurando por fora.
Larguei tudo e você pra lá por 5 momentos. Faz mal não.
21.11.09
20.11.09
18.11.09
desenha 54 triângulos e 38 quadrados pra ver se passa a falta de sono.
dorme tarde, acorda cedo. lê o jornal no café da manhã. pensa em fazer diferente mas a verdade é que gosta muito assim.
entra no quarto, arrasta a maleta meio metro, me olha 2 seg. desiste.
jogou no lixo o beija-flor morto junto com as folhas secas. ficou com pena porque eu fiquei com pena.
seu livro prensado entre os meus na cabeceira feito um sanduíche da noite.
agradece o presente. vai na loja e troca por um cor-de-rosa.
pensa nem em nada mais, só quer ver o timão na quarta. não come, não dorme, não descansa.
seu pai se tornou velho debaixo de seus olhos, em quatro ou cinco anos. seus irmãos não perceberam.
fica na cozinha tomando água no escuro e apostando consigo mesmo a cor do dia seguinte.
sonho com a mãe dele, que já morreu. era a mesma pessoa que hoje se tornou sua mãe. ela me deu conselhos.
meu problema criativo é que durmo cedo demais pros artistas.
gosta dos próprios sapatos mas preferia andar de patins.
ficou rico vendendo suco de laranja de latinha. quando vai pra cidade natal só toma grapete.
viu num filme que as pessoas se classificam sempre como porco-espinho ou raposa. também pode ter sido um sonho.
seu cadarço, amarra ele no meu. qualquer coisa você tropeça e cai em mim.
não compreende algumas coisas que acontecem em sua própria casa.
sente mais pena que medo. mais enfado que interesse. mais sono que qualquer outra coisa.
comprou um maiô de santa na rua das putas. não ornou. no meio do dia, desce a rua das santas pra fazer a troca.
é que se eu envelhecer sem, eu vou ter morrido jovem.
dorme tarde, acorda cedo. lê o jornal no café da manhã. pensa em fazer diferente mas a verdade é que gosta muito assim.
entra no quarto, arrasta a maleta meio metro, me olha 2 seg. desiste.
jogou no lixo o beija-flor morto junto com as folhas secas. ficou com pena porque eu fiquei com pena.
seu livro prensado entre os meus na cabeceira feito um sanduíche da noite.
agradece o presente. vai na loja e troca por um cor-de-rosa.
pensa nem em nada mais, só quer ver o timão na quarta. não come, não dorme, não descansa.
seu pai se tornou velho debaixo de seus olhos, em quatro ou cinco anos. seus irmãos não perceberam.
fica na cozinha tomando água no escuro e apostando consigo mesmo a cor do dia seguinte.
sonho com a mãe dele, que já morreu. era a mesma pessoa que hoje se tornou sua mãe. ela me deu conselhos.
meu problema criativo é que durmo cedo demais pros artistas.
gosta dos próprios sapatos mas preferia andar de patins.
ficou rico vendendo suco de laranja de latinha. quando vai pra cidade natal só toma grapete.
viu num filme que as pessoas se classificam sempre como porco-espinho ou raposa. também pode ter sido um sonho.
seu cadarço, amarra ele no meu. qualquer coisa você tropeça e cai em mim.
não compreende algumas coisas que acontecem em sua própria casa.
sente mais pena que medo. mais enfado que interesse. mais sono que qualquer outra coisa.
comprou um maiô de santa na rua das putas. não ornou. no meio do dia, desce a rua das santas pra fazer a troca.
é que se eu envelhecer sem, eu vou ter morrido jovem.
14.11.09
12.11.09
8.11.09
eu confiei
você se retirou
pra debaixo da pálpebra
(vermelhinha, mucosa)
sob o meu sangue
(não foi nada
passou passou)
e ainda
viestes a são paulo
conferir debaixo das saias dos outros
e na raiz do cabelo que cresce das têmporas
uma fieira pagã
ou uma corrente de contas miúdas
e depois
uma caminhada ninja na avenida
tarde cansada contente
suando chovendo
entendendo tudo
querendo banho
não passava nem um taxizinho
você se retirou
pra debaixo da pálpebra
(vermelhinha, mucosa)
sob o meu sangue
(não foi nada
passou passou)
e ainda
viestes a são paulo
conferir debaixo das saias dos outros
e na raiz do cabelo que cresce das têmporas
uma fieira pagã
ou uma corrente de contas miúdas
e depois
uma caminhada ninja na avenida
tarde cansada contente
suando chovendo
entendendo tudo
querendo banho
não passava nem um taxizinho
6.11.09
quanto você quer pra sair do seu quadrado? hem, quanto?
eu pago.
quer o que, uma viagem pra argentina
um porre violento numa balada baixa
quer só um café bem passado em silêncio na cafeteria?
que mais, quer uma foda histórica?
de rachar o dente de perder a chave
quer largar pra trás os traumas da infância?
uma parceria limpa e dura sem dose, sem ter que cortar o comprimidinho
quer uma peixada no sábado sem precisar lavar a louça?
quanto você quer pra fazer alguma outra coisa?
tô pagando.
quer quanto pra sair do balancinho ligeiro onde você sentou no parque
e já deixou de dar frio na barriga faz tempo?
quer compartilhar o cinismo com alguém quase estranho na rua?
quer ver um filme merda e pegar um resfriado com a mão no bolso?
tostar puto no sol da avenida e sentir que tá vivo porque o suor escorre pela tua cara
quer sentir o pavor de não saber o que fazer?
aprender a comer umas coisas diferentes?
quer encontrar uma pessoa nas curvas da estrada de santos?
que não seria jamé a sua pessoa das pessoas
que não mudaria sua vida pra melhor
que não passaria suas camisas
mas que calha ironicamente de ser essa pessoa que você não procurava
que té dá um bico na canela do tempo
e você acorda assustado
quer mais?
quer duvidar?
quer dividir?
pegar a rua mais longa?
quer sentir a perna queimando de adrenalina?
quer ser a novidade de alguém?
voltar pra casa e se trancar correndo no banheiro?
pense: eu quero. eu pago.
eu pago.
quer o que, uma viagem pra argentina
um porre violento numa balada baixa
quer só um café bem passado em silêncio na cafeteria?
que mais, quer uma foda histórica?
de rachar o dente de perder a chave
quer largar pra trás os traumas da infância?
uma parceria limpa e dura sem dose, sem ter que cortar o comprimidinho
quer uma peixada no sábado sem precisar lavar a louça?
quanto você quer pra fazer alguma outra coisa?
tô pagando.
quer quanto pra sair do balancinho ligeiro onde você sentou no parque
e já deixou de dar frio na barriga faz tempo?
quer compartilhar o cinismo com alguém quase estranho na rua?
quer ver um filme merda e pegar um resfriado com a mão no bolso?
tostar puto no sol da avenida e sentir que tá vivo porque o suor escorre pela tua cara
quer sentir o pavor de não saber o que fazer?
aprender a comer umas coisas diferentes?
quer encontrar uma pessoa nas curvas da estrada de santos?
que não seria jamé a sua pessoa das pessoas
que não mudaria sua vida pra melhor
que não passaria suas camisas
mas que calha ironicamente de ser essa pessoa que você não procurava
que té dá um bico na canela do tempo
e você acorda assustado
quer mais?
quer duvidar?
quer dividir?
pegar a rua mais longa?
quer sentir a perna queimando de adrenalina?
quer ser a novidade de alguém?
voltar pra casa e se trancar correndo no banheiro?
pense: eu quero. eu pago.
28.10.09
nas trezoras
que es mundinho faz de silenso
eu penso
é na não-pensança
na alternança, na variança
na não-podença e na desejança
então vem a dormença
aí fica tudo em ordem
que es mundinho faz de silenso
eu penso
é na não-pensança
na alternança, na variança
na não-podença e na desejança
então vem a dormença
aí fica tudo em ordem
27.10.09
mas um dia a pessoa acorda querendo sentir aquele cheiro
um que ela acha que sabe e acha que deve ser fantástico
que dá quando junta um tom de rosa com rosa quase parecido
(isso é a pessoa imaginando)
que sai das pedrinhas portuguesas molhadas voltando pra casa
que vem do cabelo quando alguém solta ele pra dormir
um dia a pessoa vai sonhar querendo esse cheiro
precisando adivinhar ele
um que ela acha que sabe e acha que deve ser fantástico
que dá quando junta um tom de rosa com rosa quase parecido
(isso é a pessoa imaginando)
que sai das pedrinhas portuguesas molhadas voltando pra casa
que vem do cabelo quando alguém solta ele pra dormir
um dia a pessoa vai sonhar querendo esse cheiro
precisando adivinhar ele
23.10.09
hoje
eu morri mais um pouquinho
5 dias antes do que eu estava programada
agora passa a ser o dia certo do meu último dia
5 dias antes do que eu estava programada
agora passa a ser o dia certo do meu último dia
22.10.09
20.10.09
É o Dr Atílio tava pra cimão hoje, falou, viu pelo lado dos outros, riu até. Não foi de galocha, também puta dia lindo, tava bem ele dando pinta de tatuagem no pé. Devia estar feliz com o progresso da paciente, com horário de verão. Não é que a moça esteja mentindo pra ele, tá só esperando ele se afeiçoar um pouquinho mais pra contar tudo, mas ele já sabe disso.
17.10.09
o miles
esse som aqui eu vo te falar,
só se eu tivesse uns a menos
só se fosse nas laranjeiras ou no flamengo sabe
na paissandu ou tipos
na conde de baependi
na são salvador, sabe o bombeiro?
quem sabe no catete
no apartamento da vó
só se fosse sexta noite, aquele calor da porra sem grana niuma memo
só se fosse a gente e o 485/996 dia seguinte
sabe
engarrafar no sambódromo
na boca da frei caneca
sempre ela
só se eu tivesse uns a menos
só se fosse nas laranjeiras ou no flamengo sabe
na paissandu ou tipos
na conde de baependi
na são salvador, sabe o bombeiro?
quem sabe no catete
no apartamento da vó
só se fosse sexta noite, aquele calor da porra sem grana niuma memo
só se fosse a gente e o 485/996 dia seguinte
sabe
engarrafar no sambódromo
na boca da frei caneca
sempre ela
16.10.09
Faz pra isso é dois palito,
é dois e meio, faz um trago a mais, eu,
faz um gole por tu que não vêi
faz eu uma presepada da porra pra sustentar o cordão do matrimónio
que faz um monte de parada de atividade depois da escola é
kung fu é piano,
é antiginástica é eu essa que esquecia
o pequeno o menino no parquinho do clube
voltava lá cheia de remorso
comprava chicabon pra ele abraçava e
beijava tanto meu pequeno mas
parece que ele não tava nem aí
tava mais curtindo o parquinho memo
é dois e meio, faz um trago a mais, eu,
faz um gole por tu que não vêi
faz eu uma presepada da porra pra sustentar o cordão do matrimónio
que faz um monte de parada de atividade depois da escola é
kung fu é piano,
é antiginástica é eu essa que esquecia
o pequeno o menino no parquinho do clube
voltava lá cheia de remorso
comprava chicabon pra ele abraçava e
beijava tanto meu pequeno mas
parece que ele não tava nem aí
tava mais curtindo o parquinho memo
14.10.09
8.10.09
7.10.09
Elza Bernarda
(cecília, maria, solange, cícera e claudia)
Ela era uma índia negra, gorda, de metro e meio. Ela fazia uns salgadinhos pra festa. Ela era uma negona duplex que vendia Avon. Ela era uma super sertaneja que mandava no marido. Ela foi rainha de bateria da Unidos do Cubango. Ela era linda, e tinha mais de 100 quilos. Ela livrava minha cara, e eu defendia ela sempre. Ela me ensinou a preferir a cozinha ao resto da casa. Ela visitava o filho no presídio todo domingo. Ela acreditava mesmo que estava ensinando a tartaruga a dançar. A família assistia, perplexa. Ela me ensinou taioba, serralha, mostarda, bertalha e chicória. Eu vi naquela cara larga, debaixo da pálpebra verde, a dor esfumaçada da criança que ela viu morrer no domingo. Ela tinha raiva de gente com calça vermelha na rua. Ela bebia todo o vinho do porto da minha casa. Ela quebrava tudo. Ela fazia batata frita quando eu tava doente. Ela tinha muitos irmãos, muitos primos e um deles atravessava o estado inteiro a pé, quilômetros num passinho de tartaruga e parava lá em casa pra tomar um café. Ela quebrou o pinto da minha porn-escultura e fingiu que nada tinha acontecido. Expliquei 25 vezes a mesma coisa, com métodos diferentes, e ela não aprendeu. Ela me ensinou a fazer pamonha, e paçoca de carne de sol. Eu fiz ela aprender a comer legumes. Às vezes sonho com ela e sei que é de verdade. Ela me pediu ajuda de grana e eu não pude dar. Ela terminou como muitos índios, bebendo além da conta. Ela amava o Sérgio Reis. E o Amado Batista. A gente tinha uma caixinha de esmaltes meus e dela. Tentei ensinar espanhol pra ela, mas não deu certo. Ela estava aprendendo a ler. Ela tinha uma bunda e um sorriso enormes, fazia muito sucesso na portaria. Ela levava embora um saco de farinha aqui, um pinho-sol ali. Ela desenhava louca e lindamente, mais ainda quando era nosso aniversário. Ela decorava bolos e fez um pastelão que tinha a cara dela, até com o cigarrinho na boca. Ela usava henê e até hoje eu vou na farmácia pra sentir cheiro de henê e lembrar dela. Ela usava uma peruca esquisitíssima. Passava henê também nessa peruca. Ela era casada com um caminhoneiro que não valia nada, mas tinha um taxista correto apaixonado por ela. Ela botava muita comida no meu prato de criança e achava ruim se eu não desse conta. Ela fazia ioga na igreja, e vendia rifa. A gente gravava músicas lindas no rádio, tipo 'fio de cabelo' do Leandro Leonardo. Ela via um filme com a gente e entendia tudo ao contrário. Ela lavava louça assim prato na direita, cigarro na esquerda. Ela inventava palavras como "despenhasco". Ela usava batom como blush e tinha unhas enormes e muito vermelhas. Ela tinha medo de manequim de loja. Ela nunca contou quantos anos tinha. Ela botava pimenta na comida quando tinha muitos amigos em casa, pra render. Nunca vi ela de mau humor. Ela botou umas trancinhas rasta que ficaram incríveis. Ela dava todas as besteiras do mundo pra cachorra comer, e a cachorra seguia ela o dia todo. Ela virou de cara pra parede quando fui apresentar o namorado, com medo que eu casasse. A última vez que a gente se viu ela me deu um gatinho de pelúcia, que ficava na estante da televisão dela, junto com as flores de plástico rosa. Ela desejava 'bom serviço' toda vez. Mudei de cidade e a gente chorou porque não ia mais se ver segunda e quinta. Ela se mandou sem dizer porque. Ela pediu aposentadoria, mas ninguém quis que ela fosse. Ela foi embora quando não aceitou mais ver o que via. Quando ela morreu um pedaço enorme do meu coração caiu no chão, e eu nunca mais encontrei.
Ela era uma índia negra, gorda, de metro e meio. Ela fazia uns salgadinhos pra festa. Ela era uma negona duplex que vendia Avon. Ela era uma super sertaneja que mandava no marido. Ela foi rainha de bateria da Unidos do Cubango. Ela era linda, e tinha mais de 100 quilos. Ela livrava minha cara, e eu defendia ela sempre. Ela me ensinou a preferir a cozinha ao resto da casa. Ela visitava o filho no presídio todo domingo. Ela acreditava mesmo que estava ensinando a tartaruga a dançar. A família assistia, perplexa. Ela me ensinou taioba, serralha, mostarda, bertalha e chicória. Eu vi naquela cara larga, debaixo da pálpebra verde, a dor esfumaçada da criança que ela viu morrer no domingo. Ela tinha raiva de gente com calça vermelha na rua. Ela bebia todo o vinho do porto da minha casa. Ela quebrava tudo. Ela fazia batata frita quando eu tava doente. Ela tinha muitos irmãos, muitos primos e um deles atravessava o estado inteiro a pé, quilômetros num passinho de tartaruga e parava lá em casa pra tomar um café. Ela quebrou o pinto da minha porn-escultura e fingiu que nada tinha acontecido. Expliquei 25 vezes a mesma coisa, com métodos diferentes, e ela não aprendeu. Ela me ensinou a fazer pamonha, e paçoca de carne de sol. Eu fiz ela aprender a comer legumes. Às vezes sonho com ela e sei que é de verdade. Ela me pediu ajuda de grana e eu não pude dar. Ela terminou como muitos índios, bebendo além da conta. Ela amava o Sérgio Reis. E o Amado Batista. A gente tinha uma caixinha de esmaltes meus e dela. Tentei ensinar espanhol pra ela, mas não deu certo. Ela estava aprendendo a ler. Ela tinha uma bunda e um sorriso enormes, fazia muito sucesso na portaria. Ela levava embora um saco de farinha aqui, um pinho-sol ali. Ela desenhava louca e lindamente, mais ainda quando era nosso aniversário. Ela decorava bolos e fez um pastelão que tinha a cara dela, até com o cigarrinho na boca. Ela usava henê e até hoje eu vou na farmácia pra sentir cheiro de henê e lembrar dela. Ela usava uma peruca esquisitíssima. Passava henê também nessa peruca. Ela era casada com um caminhoneiro que não valia nada, mas tinha um taxista correto apaixonado por ela. Ela botava muita comida no meu prato de criança e achava ruim se eu não desse conta. Ela fazia ioga na igreja, e vendia rifa. A gente gravava músicas lindas no rádio, tipo 'fio de cabelo' do Leandro Leonardo. Ela via um filme com a gente e entendia tudo ao contrário. Ela lavava louça assim prato na direita, cigarro na esquerda. Ela inventava palavras como "despenhasco". Ela usava batom como blush e tinha unhas enormes e muito vermelhas. Ela tinha medo de manequim de loja. Ela nunca contou quantos anos tinha. Ela botava pimenta na comida quando tinha muitos amigos em casa, pra render. Nunca vi ela de mau humor. Ela botou umas trancinhas rasta que ficaram incríveis. Ela dava todas as besteiras do mundo pra cachorra comer, e a cachorra seguia ela o dia todo. Ela virou de cara pra parede quando fui apresentar o namorado, com medo que eu casasse. A última vez que a gente se viu ela me deu um gatinho de pelúcia, que ficava na estante da televisão dela, junto com as flores de plástico rosa. Ela desejava 'bom serviço' toda vez. Mudei de cidade e a gente chorou porque não ia mais se ver segunda e quinta. Ela se mandou sem dizer porque. Ela pediu aposentadoria, mas ninguém quis que ela fosse. Ela foi embora quando não aceitou mais ver o que via. Quando ela morreu um pedaço enorme do meu coração caiu no chão, e eu nunca mais encontrei.
Episódio do Inimigo
Tantos anos fugindo e esperando e agora o inimigo estava em minha casa. Da janela, vi-o subir penosamente pelo áspero caminho da colina. Ajudava-se com uma bengala, com uma torpe bengala que em velhas mãos não podia ser uma arma porém um báculo. Custou-me a perceber o que esperava: a débil batida na porta. Não sem nostalgia, olhei meus manuscritos, meu borrão semiconcluído e o tratado de Artemidoro sobre os sonhos, livro um tanto anômalo aí, uma vez que não sei grego. Outro dia perdido, pensei. Tive de forcejar com a chave. Receei que o homem desfalecesse, porém deu uns passos incertos, soltou a bengala, que não tornei a ver, e caiu em minha cama submisso. Minha ansiedade o tinha imaginado muitas vezes, mas só então notei que ele se parecia, de um modo quase fraternal, como o último retrato de Lincoln. Seriam as quatro da tarde.
Inclinei-me sobre ele para que me ouvisse.
- A gente crê que os anos passam para um - lhe disse - mas passam também para os demais. Aqui por fim nos encontramos e o que ocorreu antes não tem sentido.
Enquanto eu falava, ele tinha desabotoado o sobretudo. A mão direita estava no bolso do paletó. Algo apontava para mim e eu percebi que era um revólver.
Disse-me então com voz firme:
- Para entrar em sua casa, recorri à compaixão. Tenho-o agora à minha mercê e não sou misericordioso. Tentei umas palavras. Não sou um homem forte e só as palavras poderiam salvar-me. Atinei em dizer:
- É verdade que faz tempo maltratei um menino, mas você já não é aquele menino nem eu aquele insensato. Além disso, a vingança não é menos vaidosa que o perdão.
- Precisamente porque já não sou aquele menino - replicou-me - tenho de matá-lo. Não se trata de uma vingança, mas de um ato de justiça. Seus argumentos, Borges, são meros estratagemas de seu terror para que eu não o mate. Você já não pode fazer nada.
- Posso fazer uma coisa - respondi-lhe.
- O quê? - perguntou-me.
- Despertar.
E assim o fiz.
--------------------------------
Jorge Luis Borges
Tantos anos fugindo e esperando e agora o inimigo estava em minha casa. Da janela, vi-o subir penosamente pelo áspero caminho da colina. Ajudava-se com uma bengala, com uma torpe bengala que em velhas mãos não podia ser uma arma porém um báculo. Custou-me a perceber o que esperava: a débil batida na porta. Não sem nostalgia, olhei meus manuscritos, meu borrão semiconcluído e o tratado de Artemidoro sobre os sonhos, livro um tanto anômalo aí, uma vez que não sei grego. Outro dia perdido, pensei. Tive de forcejar com a chave. Receei que o homem desfalecesse, porém deu uns passos incertos, soltou a bengala, que não tornei a ver, e caiu em minha cama submisso. Minha ansiedade o tinha imaginado muitas vezes, mas só então notei que ele se parecia, de um modo quase fraternal, como o último retrato de Lincoln. Seriam as quatro da tarde.
Inclinei-me sobre ele para que me ouvisse.
- A gente crê que os anos passam para um - lhe disse - mas passam também para os demais. Aqui por fim nos encontramos e o que ocorreu antes não tem sentido.
Enquanto eu falava, ele tinha desabotoado o sobretudo. A mão direita estava no bolso do paletó. Algo apontava para mim e eu percebi que era um revólver.
Disse-me então com voz firme:
- Para entrar em sua casa, recorri à compaixão. Tenho-o agora à minha mercê e não sou misericordioso. Tentei umas palavras. Não sou um homem forte e só as palavras poderiam salvar-me. Atinei em dizer:
- É verdade que faz tempo maltratei um menino, mas você já não é aquele menino nem eu aquele insensato. Além disso, a vingança não é menos vaidosa que o perdão.
- Precisamente porque já não sou aquele menino - replicou-me - tenho de matá-lo. Não se trata de uma vingança, mas de um ato de justiça. Seus argumentos, Borges, são meros estratagemas de seu terror para que eu não o mate. Você já não pode fazer nada.
- Posso fazer uma coisa - respondi-lhe.
- O quê? - perguntou-me.
- Despertar.
E assim o fiz.
--------------------------------
Jorge Luis Borges
4.10.09
3.10.09
eu sonhei na quinta
que a sobrinha que tenho há 25 anos
era um bebê de novo
e ela era um coração pequenino de metal
que eu levava pra passear em todo canto
contei meu sonho
pra todas as mulheres da família
e são várias mulheres
e mulheres adoram bebês
e sonhos e coraçõezinhos
aí agora o telefone tocou
interurbano, de uma cidade bem longe
era um presente
aquela vozinha fina de irmã doce
disse que eu vou ser tia de novo
eu estou longe deles todos
cada um num lugar diferente
e queria muito estar perto
e eu sou uma pessoa muito feliz agora
pode vir, coraçãozinho
que a sobrinha que tenho há 25 anos
era um bebê de novo
e ela era um coração pequenino de metal
que eu levava pra passear em todo canto
contei meu sonho
pra todas as mulheres da família
e são várias mulheres
e mulheres adoram bebês
e sonhos e coraçõezinhos
aí agora o telefone tocou
interurbano, de uma cidade bem longe
era um presente
aquela vozinha fina de irmã doce
disse que eu vou ser tia de novo
eu estou longe deles todos
cada um num lugar diferente
e queria muito estar perto
e eu sou uma pessoa muito feliz agora
pode vir, coraçãozinho
my teenage sensation
es que me pelo de miedo en lo fin delas cuentay que pinche situacion desconfortable de se encajarsele numa categoria situacionária
lo que pasa es que
todo es muy mucho más grande
muy marabichoso lance q acontece de momiento,
es increíble, man
es grande y hodidamiente presente
quando nego não pode errar a hora das coisa
por conta dos patrocinadores,
nego não erra
mas e quando são os guardas?
porque aqui e ali é pra gente dar um boa noite cindereles nelles,
nos guardas,
botar eles pra dormir
e acho que nego não sei meu
que nego não sabe nem os guardas q tem
es que me pelo de miedo en lo fin delas cuentay que pinche situacion desconfortable de se encajarsele numa categoria situacionária
lo que pasa es que
todo es muy mucho más grande
muy marabichoso lance q acontece de momiento,
es increíble, man
es grande y hodidamiente presente
quando nego não pode errar a hora das coisa
por conta dos patrocinadores,
nego não erra
mas e quando são os guardas?
porque aqui e ali é pra gente dar um boa noite cindereles nelles,
nos guardas,
botar eles pra dormir
e acho que nego não sei meu
que nego não sabe nem os guardas q tem
25.9.09
O incrível daquele filme era uma coisa só mas era tão incrível, que idéia tão tiny e poética solta dentro de uma parada insuportável até pra alguém bem disposto que era o tal filme.
E o incrível era: ela foi morar numa casa que pegava fogo o tempo todo. Era um incêndio eterno, a casa dela em chamas, eram só pequenos foguinhos aqui e lá sobre a cômoda, embaixo das plantas, e muita fumaça. Ela quis morar nessa casa, tinha o cabelo muito vermelho, era aquela feia-bonita mas o cabelo era realmente espetacular e ela vivia lá no meio dos focos de incendiozinho e ela esperou até que o tonto do gordo quis enfim gostar dela e nesse dia ela morreu de tanto respirar fumaça.
Eu pedi um matrimônio ao querido São João.
São João disse que não, isso é lá com Santo Antônio.
Meu q papo de publicitário é esse agora que eu tenho primeiro que escrever sabonete pra depois escrever cachorro.
Nada me DES tão forte quanto cara fechada e falta de sol prolongadas. Dor eu sinto, das pessoas que eu já perdi e um pouco de dor nos pontos que eu vou tirar na quarta e sinto saudade também do insuperável, e a dor de não saber.
Fora isso é bom embora não seja mais aquela felicidade freestyle você-tem-um-olhar-que-parece-natal mas é que eu já fiz mais de 30 e com isso vem a normalidade, e o choque da normalidade e as pintinhas desmelann-- ou supermelaninizadas aqui nos braços no colo e nos peitos.
Maque traquilidade mano eu lá quero tranquilis, eu quero paz vai ohmm que é diferente de tranquilidade, eu quero dançar tudo até dar a hora de sumir, a minha hora, que é aquela que depois disso eu desapareci e ninguém mais me achou mas antes disso eu quero o calor molhado o olho de rímel preto, sandália vermelha, o vestido cantando, cabelo por cima dos olhos fechados, dentes todos de fora e a voz sumindo já rouca e o som, o som crescendo inacreditável no meu estômago.
Eu quero o jardim do MAM em fevereiro, suando purpurina, no beco do rato sexta às 19 sem frescura sem reservas, com o palavrão no bico, chinelinho velho mermo, desodorante da amiga, um brinco só, máscara de bicho, água muitas, dinheiro sumindo em cachaça, amigos de épocas diversas tantas me encontrando como se tivessem sempre sido os melhores e eu les dizendo yo te amo mi amigo, adoré su fantasía.
Que rainha fulltime madama, flor vagarosa e super-donut de miel eu sou assim é sem essa roupa toda, é sem dedos sem cerimônia e é sem fila.
Ocaceta de lugar viu.
E o incrível era: ela foi morar numa casa que pegava fogo o tempo todo. Era um incêndio eterno, a casa dela em chamas, eram só pequenos foguinhos aqui e lá sobre a cômoda, embaixo das plantas, e muita fumaça. Ela quis morar nessa casa, tinha o cabelo muito vermelho, era aquela feia-bonita mas o cabelo era realmente espetacular e ela vivia lá no meio dos focos de incendiozinho e ela esperou até que o tonto do gordo quis enfim gostar dela e nesse dia ela morreu de tanto respirar fumaça.
Eu pedi um matrimônio ao querido São João.
São João disse que não, isso é lá com Santo Antônio.
Meu q papo de publicitário é esse agora que eu tenho primeiro que escrever sabonete pra depois escrever cachorro.
Nada me DES tão forte quanto cara fechada e falta de sol prolongadas. Dor eu sinto, das pessoas que eu já perdi e um pouco de dor nos pontos que eu vou tirar na quarta e sinto saudade também do insuperável, e a dor de não saber.
Fora isso é bom embora não seja mais aquela felicidade freestyle você-tem-um-olhar-que-parece-natal mas é que eu já fiz mais de 30 e com isso vem a normalidade, e o choque da normalidade e as pintinhas desmelann-- ou supermelaninizadas aqui nos braços no colo e nos peitos.
Maque traquilidade mano eu lá quero tranquilis, eu quero paz vai ohmm que é diferente de tranquilidade, eu quero dançar tudo até dar a hora de sumir, a minha hora, que é aquela que depois disso eu desapareci e ninguém mais me achou mas antes disso eu quero o calor molhado o olho de rímel preto, sandália vermelha, o vestido cantando, cabelo por cima dos olhos fechados, dentes todos de fora e a voz sumindo já rouca e o som, o som crescendo inacreditável no meu estômago.
Eu quero o jardim do MAM em fevereiro, suando purpurina, no beco do rato sexta às 19 sem frescura sem reservas, com o palavrão no bico, chinelinho velho mermo, desodorante da amiga, um brinco só, máscara de bicho, água muitas, dinheiro sumindo em cachaça, amigos de épocas diversas tantas me encontrando como se tivessem sempre sido os melhores e eu les dizendo yo te amo mi amigo, adoré su fantasía.
Que rainha fulltime madama, flor vagarosa e super-donut de miel eu sou assim é sem essa roupa toda, é sem dedos sem cerimônia e é sem fila.
Ocaceta de lugar viu.
21.9.09

né nada não. nem sério é. mas é que passa a ser um dia especial, se calha de fazer sol e o velho senhor da casa do lado aparecer de calça jeans. eu fico satisfeita.
tem uma idéia boa eu, mas quase um país das maravilhas, quase uma mentira.
acaba que esquece de ver o programa preferido de noite, esquece o congelado fora da geladeira, deixa o guardachuva na gaveta não marca médico acaba que perde todo tempo livre nessas coisas distantes, eu.
como faz pra desligar? olha só, eu quero é só uma parte, não quero tudo não, quero só o fácil, só o que diz aquele provérbio chinês que eu inventei.
29.8.09
eu podia fazer um desenho dessa música pelo tanto de vezes que fiz ela tocar pelo tanto que pensei num começo meio e fim com trilha sonora e era ela era janis pra variar era ela feito loca em loop sempre sempre novidade sempre uma novidade antiga say honey it cant be
just because I got to want your love
just because I got to need you daddy
felt to me honey like, lord, a ball and chain
just because I got to want your love
just because I got to need you daddy
felt to me honey like, lord, a ball and chain
21.8.09
vai ser uma pena mesmo, vou sofrer caso sobre depois que a humanidade for inacreditavelmente detonada, porque deve ser isso, eu sei que deve, não sei se vai, só sei que merece pelo acúmulo de cagadas e egoísmos e pela mediocridade principalmente, quase sempre por ela, um limite não sempre claro entre o que está ok e o que podia ser feito melhor, mas o mais é tudo de uma nivelação média conformada faustão cumpádi washington que putamerda, e caguei também pra reforma ortográfica e pro motorista da secretária da ministra, e lamento, lamento mesmo por cada mini de energia dispersado com uma coisa que não vai fazer a menor diferença no conjunto, mas tudo tem um outro lado e é aí que se explica porque amamos quando encontramos jóias gêmeas nossas e, enfim, tem tanta música bonita, tem uma caralhada de sentimentos lindos jorrando ou querendo ser jorrados e barrados pelo medo, mas eles existem estão na espreita e só porque existem fazem parte do mundo, e só por isso o mundo é mais incrível, por exemplo o medo cotidiano de envelhecer porque a gente se acha menino demais pra essa idade que tem, sempre parece que tem alguma coisa em descompasso, esse temor dá uma dignidade pra gente, sabe, ser tão senhor e sofrer em segredo, e além disso tem o cinema, tem os bebês de dois anos, que são a melhor coisa e tem as palavras, as conversas, o riso, e tem quando eles não estão lá mas tem o olhar pra segurar todo o lance, um olhar mínimo que é só a portinhola que abre e fecha de um puta vesúvio dentro da pessoa que não deve sair por ali e fica dentro brilhando em pantone 1665c, em smooth sparkles sem mesmo que ela saiba o que é aquilo ali, e além disso tem as comidas, eu digo as frutas, temperos e a carne de carneiro principalmente e as receitas que a gente faz em casa ou aprendeu com nossas várias mães, tem as coisas que a gente só sabe que existem porque uma pessoa foi lá descobrir aquilo tipo um dinossauro pequenininho, uma interpretação de sonhos que tira a responsabilidade das suas burradas de cima dos outros, um movimento interplanetário silencioso e lento, e aí tem a mágica que ninguém domina mas que só existe porque nos damos conta dela, alguns de nós é claro, e tem a sensação de estar dentro de um corpo humano, observar as próprias mãos frente e verso e frente e verso, encontrar antepassados num lugar pequeno assim de si, e meter esses dedos dentro dos prórpios cabelos, ou da cabeça de outro alguém que vai fechar os olhos de satisfação e confiança, e por toda a comunicação que não é verbal sem desmerecer as palavras que como eu já disse são quase tão bonitas como um cachorro depois de comer uma coisa que ele adora, esse silêncio que a gente é surpreendido por ele ou que a gente deixa acontecer porque sabe que é foda, isso é o que eu vou sentir mais falta da humanidade, se chegar um dia que a gente não possa mais escolher as comunicações e apenas precise delas, quando elas forem só uma necessidade de novo, como deve ter sido no começo.
5.8.09
e você fala e logo depois você se veste
aperta o botão e off
nessa hora eu tava desenhando com o dedo no ar uma perna de metal
o amor é velho, menina
aperta o botão e off
nessa hora eu tava desenhando com o dedo no ar uma perna de metal
o amor é velho, menina
1.8.09
one day soul time
gimme gimme more
pra todos que amam e que amam sem limites e amam com uma fome comedida tipo adriana
que retiram maquilagem que querem da maneira que eu acho que deve ser sem prestabelecidos
com um estabelecido de jazz incrível full of tons e sabemos todos que mora na filosofia e hoje,
hoje a de hoje é pra vocês.
pra todos que amam e que amam sem limites e amam com uma fome comedida tipo adriana
que retiram maquilagem que querem da maneira que eu acho que deve ser sem prestabelecidos
com um estabelecido de jazz incrível full of tons e sabemos todos que mora na filosofia e hoje,
hoje a de hoje é pra vocês.
15.7.09
Sweetheart Restaurante Taiwanes
Fácil expulsar a criança, 'a mesa está ocupada'. Era uma mulher de veludo verde, em cabelos ferrugem-amarelos, um queixo quadrado e um ar ausente. Solitária. Como tantos outros, como todos nós, que hoje fugimos das nossas famílias e não telefonamos pros amigos. Escolhemos todos estar sozinhos, e viemos pro mesmo lugar.
Sentei na mesinha do restaurante, parecido com uma lachonete simples, muito simples, gente que só folga no primeiro do ano. Cozinha bem, cobra barato e ri. Me sentei lá. Ele sentou na minha frente, não tinha outro lugar. Pareceu embaraçado achando que ia me incomodar, que estampa frágil, uns dedos tão magros. Embora parecesse todo nacional paulistano, falou uma língua que eu não entendi e foi cumprimentado pelo cozinheiro. Ele veio lá de dentro só pra isso limpando a mão no avental.
Tive pena dele porque estava comendo sozinho. Mas eu também estava e não fiquei com pena de mim. Minha refeição chegou logo depois, e isso fez parecer que tínhamos combinado de almoçar juntos.
Pensei bom apetite pra ele, e comemos em silêncio.
Tamborzinho de metal lá no fundo, a cerimônia religiosa deles aconteceu debaixo de uma tenda miúda por causa da quantidade de chuva que caía. As pessoas queriam ver mas ficaram debaixo da marquise aproveitando só o som.
Entendi quem ficou parado ali como se não tivesse nada melhor pra fazer. Foi um dia que ficou preto na hora do almoço, muito molhado, e as minhas botas têm umas infiltrações mas era tão bonito ouvir e sentir o vento do dia escuro na cara, a trança bem presa, lanterninhas multicolores se acendendo e eu comprei duas tirinhas de papel na barraca dos desejos, um branco e um amarelo, escrevi o meu e botei só meu primeiro nome e prendi em uma das árvores que servem pra pendurar desejos que eles puseram no caminho, e era isso, essas árvores também davam um alívio, faziam o som e a luz, o vento parecerem mais especiais únicos perfeitos mesmo pra quem tava com o pé molhado.
Eu queria era ver se aparecia alguém com um tênis muito velho, de mais de dez anos, fiquei vigiando mas ninguém apareceu. Quem sabe assim eu teria com quem dividir um pensamento secreto de menos de seis segundos (reparei no seu tênis mas não acho ele inadequado), num relance de milhares de livros e uma sequência de pufes confortáveis das mais modernas cores.
Mas é claro que pessoas que lidam melhor com opções, o passado e suas próprias mundanidades são as improvavelmente capazes de fazer o movimento que vai mandar tudo pelos ares.
[o melhor é que a mulher de veludo quadrado ferrugem ausente blabla, ela tinha as unhas tão brancas da cor da mão e eles me arrumaram uma poltrona confortável bem do lado da vidraça, tem umas persianas mais ou menos abertas e é muito bom ver como está chovendo lá fora nos carros nas árvores, seria só esticar o braço e um pouco do corpo também e sentir a chuva se não tivesse a vidraça mas o melhor é que ela esteja aí mesmo]
São três filhos homens e um marido careca, o que faz funcionar - mesmo o moleque do meio batendo a cabeça na parede - é que a mãe tem 190cm, uns 20 a mais que o maior deles.
Enfiei na boca o torrão de chocolate que veio acompanhando o café e foi sem pensar e eu acho isso estranho porque é quase nunca que eu fico sem pensar então, bom, esse foi um desses momentos, eu comi a bolinha açucarada e foi um susto a coisa toda se espalhando e grudando pela minha boca adentro, não é que tenha sido ruim mas não foi completamente bom porque é só o gosto, eu já não sinto a felicidade dos doces.
E porque falei uma besteira do tamanho de um bonde querendo fazer a sabidinha mas a minha memória enrola feito língua de bêbado quando eu estou pressionada pelo meu próprio coração.
Sentei na mesinha do restaurante, parecido com uma lachonete simples, muito simples, gente que só folga no primeiro do ano. Cozinha bem, cobra barato e ri. Me sentei lá. Ele sentou na minha frente, não tinha outro lugar. Pareceu embaraçado achando que ia me incomodar, que estampa frágil, uns dedos tão magros. Embora parecesse todo nacional paulistano, falou uma língua que eu não entendi e foi cumprimentado pelo cozinheiro. Ele veio lá de dentro só pra isso limpando a mão no avental.
Tive pena dele porque estava comendo sozinho. Mas eu também estava e não fiquei com pena de mim. Minha refeição chegou logo depois, e isso fez parecer que tínhamos combinado de almoçar juntos.
Pensei bom apetite pra ele, e comemos em silêncio.
Tamborzinho de metal lá no fundo, a cerimônia religiosa deles aconteceu debaixo de uma tenda miúda por causa da quantidade de chuva que caía. As pessoas queriam ver mas ficaram debaixo da marquise aproveitando só o som.
Entendi quem ficou parado ali como se não tivesse nada melhor pra fazer. Foi um dia que ficou preto na hora do almoço, muito molhado, e as minhas botas têm umas infiltrações mas era tão bonito ouvir e sentir o vento do dia escuro na cara, a trança bem presa, lanterninhas multicolores se acendendo e eu comprei duas tirinhas de papel na barraca dos desejos, um branco e um amarelo, escrevi o meu e botei só meu primeiro nome e prendi em uma das árvores que servem pra pendurar desejos que eles puseram no caminho, e era isso, essas árvores também davam um alívio, faziam o som e a luz, o vento parecerem mais especiais únicos perfeitos mesmo pra quem tava com o pé molhado.
Eu queria era ver se aparecia alguém com um tênis muito velho, de mais de dez anos, fiquei vigiando mas ninguém apareceu. Quem sabe assim eu teria com quem dividir um pensamento secreto de menos de seis segundos (reparei no seu tênis mas não acho ele inadequado), num relance de milhares de livros e uma sequência de pufes confortáveis das mais modernas cores.
Mas é claro que pessoas que lidam melhor com opções, o passado e suas próprias mundanidades são as improvavelmente capazes de fazer o movimento que vai mandar tudo pelos ares.
[o melhor é que a mulher de veludo quadrado ferrugem ausente blabla, ela tinha as unhas tão brancas da cor da mão e eles me arrumaram uma poltrona confortável bem do lado da vidraça, tem umas persianas mais ou menos abertas e é muito bom ver como está chovendo lá fora nos carros nas árvores, seria só esticar o braço e um pouco do corpo também e sentir a chuva se não tivesse a vidraça mas o melhor é que ela esteja aí mesmo]
São três filhos homens e um marido careca, o que faz funcionar - mesmo o moleque do meio batendo a cabeça na parede - é que a mãe tem 190cm, uns 20 a mais que o maior deles.
Enfiei na boca o torrão de chocolate que veio acompanhando o café e foi sem pensar e eu acho isso estranho porque é quase nunca que eu fico sem pensar então, bom, esse foi um desses momentos, eu comi a bolinha açucarada e foi um susto a coisa toda se espalhando e grudando pela minha boca adentro, não é que tenha sido ruim mas não foi completamente bom porque é só o gosto, eu já não sinto a felicidade dos doces.
E porque falei uma besteira do tamanho de um bonde querendo fazer a sabidinha mas a minha memória enrola feito língua de bêbado quando eu estou pressionada pelo meu próprio coração.
11.7.09
8.7.09
B.
Aí quando vi eu estava dentro. Atrasei a hora de passar pela porta e então não tinha mais o que fazer, eu tava lá. Eu vi, estive com ele. De novo e mais perto. O homem tímido olhando pro chão não era o mesmo, mas era ele personagem novamente, anos depois. Sério. Precisando desesperadamente negar a vaidade, não a suportaria em público.
Um quadradinho de imagem na minha mão, a que alguém selecionou determinando que fosse ela a me servir de referência, vista de todo um castelo de coisas pré-fabricadas. Dessa imagem, depois de uma presença breve na presença dele, eu fiz um quadro pequeno, com galhinhos de perguntas saindo da foto. Que eu não sei, não consegui fazer e não é tão interessante assim descobrir, já que fantasiar sobre alguém cuja ocupação é fantasiar sobre tudo pode ser infinitamente mais interessante, e mais limpo, e duradouro.
Depois de presenciá-lo arrogante e vulnerável, todo suores, escondendo o fato de que sabe sobre a sua beleza, entendi escrachado um homem quase na metade da vida, à vontade no seu tapetão de limites escolhidos e concessões muito poucas. Sério.
Acho que também ele só quer ser querido.
Um quadradinho de imagem na minha mão, a que alguém selecionou determinando que fosse ela a me servir de referência, vista de todo um castelo de coisas pré-fabricadas. Dessa imagem, depois de uma presença breve na presença dele, eu fiz um quadro pequeno, com galhinhos de perguntas saindo da foto. Que eu não sei, não consegui fazer e não é tão interessante assim descobrir, já que fantasiar sobre alguém cuja ocupação é fantasiar sobre tudo pode ser infinitamente mais interessante, e mais limpo, e duradouro.
Depois de presenciá-lo arrogante e vulnerável, todo suores, escondendo o fato de que sabe sobre a sua beleza, entendi escrachado um homem quase na metade da vida, à vontade no seu tapetão de limites escolhidos e concessões muito poucas. Sério.
Acho que também ele só quer ser querido.
7.7.09
é bom
céu preto com buraco de sol
função de cozinha com as mulheres da família
a ponta do cabelo passando no pescoço
cheiro de café de manhã cedo
abrir os olhos ao mesmo tempo que a pessoa
sair do cinema diferente
velhos com a calça alta
sexta-feira
queda d’água
quando descobrem um planeta novo
achar na rua o personagem do livro
cominho
chegar no restaurante
lavar a cabeça no cabeleireiro
pedir ‘pra presente’ pra mim mesma
dormir com o calorzinho do meu cachorro
ficar em casa por causa da tempestade
banho quente no frio
11 horas da manhã depois de muita coisa
barulho de sinuca
restinho do perfume no fim do dia
parada de ônibus de viagem na madrugada
bibocas do centro do rio
dança de par em casa
panos bons de pegar
acordar cedo
sonho que fica durante o dia
ter uma idéia boa e não esquecer
outubro
pinhão quente
sean penn
pessoas educadas de outros estados
sair da acupuntura
silêncio não-constrangedor
viajar só
comemorações
dar bom dia pro desconhecido
mensagem de texto no telefone
vitrine de padaria
função de cozinha com as mulheres da família
a ponta do cabelo passando no pescoço
cheiro de café de manhã cedo
abrir os olhos ao mesmo tempo que a pessoa
sair do cinema diferente
velhos com a calça alta
sexta-feira
queda d’água
quando descobrem um planeta novo
achar na rua o personagem do livro
cominho
chegar no restaurante
lavar a cabeça no cabeleireiro
pedir ‘pra presente’ pra mim mesma
dormir com o calorzinho do meu cachorro
ficar em casa por causa da tempestade
banho quente no frio
11 horas da manhã depois de muita coisa
barulho de sinuca
restinho do perfume no fim do dia
parada de ônibus de viagem na madrugada
bibocas do centro do rio
dança de par em casa
panos bons de pegar
acordar cedo
sonho que fica durante o dia
ter uma idéia boa e não esquecer
outubro
pinhão quente
sean penn
pessoas educadas de outros estados
sair da acupuntura
silêncio não-constrangedor
viajar só
comemorações
dar bom dia pro desconhecido
mensagem de texto no telefone
vitrine de padaria
atélogos
29.6.09
30.5.09
.
na estrênua brevidade
Vida:
realejos e abril
treva, amigos
eu me lanço rindo.
Nas tintas fio-de-cabelo
da aurora amarela,
no ocaso colorido de mulheres
eu sorrisando
deslizo. Eu
na grande viagem escarlate
nado, dizendomente;
(Você sabe?) o
sim, mundo
é provavelmente feito
de rosas & alô:
(de atélogos e,cinzas)
---
( tradução: Augusto de Campos )
---------------------------------------
into the strenuous briefness
Life:
handorgans and April
darkness, friends
i charge laughing.
Into the hair-thin tints
of yellow dawn,
into the women-coloured twilight
i smilingly glide. I
into the big vermilion departure
swim, sayingly;
(Do you think?) the
i do, world
is probably made
of roses & hello:
(of solongs and, ashes)
e. e. cummings
un
no meio do sanduíche ainda no trabalho na hora do almoço
saltou a criatura:
não posso mais ser inventada por você. estou desexistindo.
não pegou suas coisas e saiu.
branca na rua cristalizada de gelo e carros, percebeu o sangue vibrando por dentro dos dedos, debaixo de unhas e anéis - - escarlate roxo e prata
sentiu a ida e a volta nas veias, olhou bem de perto por algum tempo e se impressionou com uma coisa que nunca tinha percebido. e que acontece todo o tempo
pediu uma bebida quente, mais fria que o ar em volta
uma vez ficou na dúvida
desconseguia não tremer
suava
prendia e reprendia as fivelinhas
eis a criatura, mergulhada em xícara de café, abraçada na colherinha:
sua dor passou, seu ódio se esqueceu, seus cabelos cortados por ela mesma cresceram,
e seus dentes bateram de pavor noturno
e temperatura baixa
porque era quase só um lugar entre a barriga e o peito
que ainda tinha calor nesse dia.
um nada muito
muito silencioso
de não saber
onde pôr as mãos
que são só as extremidades de todo o resto enorme embora pequeno
a saber onde enfiar
em dia extraordinário,
de descoraçonabilizamento
a criação desejou estar numa casa quente
pensou em voltar porque tinha uma pergunta a fazer
e depois saltar do teleférico em movimento
mas perguntar não ajeitaria
nem o estômago de ningém voltaria pro lugar,
nem faria mais calor que isso.
respirou bem forte o ar que existia
então o café terminou sua criatura,
que sentiu os dedos correndo pelo sangue,
e o sangue subiu as escadas de costas,
a escada soltou as fivelinhas,
as fivelinhas guardaram os óculos e
as lentes desconcentraram no trabalho da tarde.
Mas aí, mas. Mas aí que sensação é essa agora. De que tudo ao contrário.
De que fui eu que criei você
?
saltou a criatura:
não posso mais ser inventada por você. estou desexistindo.
não pegou suas coisas e saiu.
branca na rua cristalizada de gelo e carros, percebeu o sangue vibrando por dentro dos dedos, debaixo de unhas e anéis - - escarlate roxo e prata
sentiu a ida e a volta nas veias, olhou bem de perto por algum tempo e se impressionou com uma coisa que nunca tinha percebido. e que acontece todo o tempo
pediu uma bebida quente, mais fria que o ar em volta
uma vez ficou na dúvida
desconseguia não tremer
suava
prendia e reprendia as fivelinhas
eis a criatura, mergulhada em xícara de café, abraçada na colherinha:
sua dor passou, seu ódio se esqueceu, seus cabelos cortados por ela mesma cresceram,
e seus dentes bateram de pavor noturno
e temperatura baixa
porque era quase só um lugar entre a barriga e o peito
que ainda tinha calor nesse dia.
um nada muito
muito silencioso
de não saber
onde pôr as mãos
que são só as extremidades de todo o resto enorme embora pequeno
a saber onde enfiar
em dia extraordinário,
de descoraçonabilizamento
a criação desejou estar numa casa quente
pensou em voltar porque tinha uma pergunta a fazer
e depois saltar do teleférico em movimento
mas perguntar não ajeitaria
nem o estômago de ningém voltaria pro lugar,
nem faria mais calor que isso.
respirou bem forte o ar que existia
então o café terminou sua criatura,
que sentiu os dedos correndo pelo sangue,
e o sangue subiu as escadas de costas,
a escada soltou as fivelinhas,
as fivelinhas guardaram os óculos e
as lentes desconcentraram no trabalho da tarde.
Mas aí, mas. Mas aí que sensação é essa agora. De que tudo ao contrário.
De que fui eu que criei você
?
27.5.09
26.5.09
era um ambiente sonoro duotone
porque antes de ter isso tudo era nada que tinha
era quase
era menos, bem menos
mas não era vazio
e era tanta coisa que não existia
que não precisava
mais claro mais frio
com as cores nítidas, os sons eram um de cada vez e o ar
se movia na hora dele mesmo
porque não era necessário
isso no tempo que não havia gilete,
nem fósforo
os ouvidos que existiam desejavam pouco,
digo, gostavam de uma coisa com menor tamanho
e nesse meio tempo todo não precisava de quase nada
desde então
um então no meio do tempo
veio ele e passou a dizer
pros que viviam precisando:
Pesos e Medidas
e Tamanhos
e Volumes
e Tudo Que Há
agora se pode dizer assim
Tudo Que Há e que sabemos ou não,
tudo que apenas enxergamos com os olhos,
em nossa ridícula participação nesse lugar,
eu vos digo,
podemos cientificamente prever
e passa a ser de acordo com el rey.
forgerabau as outras leituras! de cheiro de pegar de adivinhar
e aí, isso que vem a ser quase tudo que importa
ficou sendo a exceção pra ilustrar
o que está fora das CNTP
quero pensar que existe outra coisa
hoje o que eu quero é que você tudo esquece
usar umas pequenas unhas vermelho-laranjas que tudo executam
sem menos dinheiro menos velocidade menos expectativas
um pé diante do outro feito uma pessoa machucada
que leva uma hora no lugar de meia
é que desde que cheguei aqui tudo se repete numa variedade incrível
de postos degraus e gramaturas
nesse meu nome que eles insistem formalmente em chamar inteiro
e nesse seu que a gente brinca de confundir
porque antes de ter isso tudo era nada que tinha
era quase
era menos, bem menos
mas não era vazio
e era tanta coisa que não existia
que não precisava
mais claro mais frio
com as cores nítidas, os sons eram um de cada vez e o ar
se movia na hora dele mesmo
porque não era necessário
isso no tempo que não havia gilete,
nem fósforo
os ouvidos que existiam desejavam pouco,
digo, gostavam de uma coisa com menor tamanho
e nesse meio tempo todo não precisava de quase nada
desde então
um então no meio do tempo
veio ele e passou a dizer
pros que viviam precisando:
Pesos e Medidas
e Tamanhos
e Volumes
e Tudo Que Há
agora se pode dizer assim
Tudo Que Há e que sabemos ou não,
tudo que apenas enxergamos com os olhos,
em nossa ridícula participação nesse lugar,
eu vos digo,
podemos cientificamente prever
e passa a ser de acordo com el rey.
forgerabau as outras leituras! de cheiro de pegar de adivinhar
e aí, isso que vem a ser quase tudo que importa
ficou sendo a exceção pra ilustrar
o que está fora das CNTP
quero pensar que existe outra coisa
hoje o que eu quero é que você tudo esquece
usar umas pequenas unhas vermelho-laranjas que tudo executam
sem menos dinheiro menos velocidade menos expectativas
um pé diante do outro feito uma pessoa machucada
que leva uma hora no lugar de meia
é que desde que cheguei aqui tudo se repete numa variedade incrível
de postos degraus e gramaturas
nesse meu nome que eles insistem formalmente em chamar inteiro
e nesse seu que a gente brinca de confundir
24.4.09
tudo bem então eu não ando de bicicleta
você caiu foi um acidente
apenas sofra o necessário
não sei essa sensação
apenas sinta e aproveite o resto de um machucado que
as outras crianças não ostentam
não sei isso
sei chegar em casa morrer de fome
de fome
tomar banho pensando na comida
não tomar banho
pensar na comida
devorar muito a atemóia manga verde coalhada purê de mandioquinha
gelado
nao dá pra esquentar
passei suficientemente mal no durante
perdi no mesmo dia o botão encapado custou 2,50 cada
pego e olho novamente aquela foto do cachorro
você ainda esta lá, o outro você
ella es flama que se eleva y es un pajaro a volar
você caiu foi um acidente
apenas sofra o necessário
não sei essa sensação
apenas sinta e aproveite o resto de um machucado que
as outras crianças não ostentam
não sei isso
sei chegar em casa morrer de fome
de fome
tomar banho pensando na comida
não tomar banho
pensar na comida
devorar muito a atemóia manga verde coalhada purê de mandioquinha
gelado
nao dá pra esquentar
passei suficientemente mal no durante
perdi no mesmo dia o botão encapado custou 2,50 cada
pego e olho novamente aquela foto do cachorro
você ainda esta lá, o outro você
ella es flama que se eleva y es un pajaro a volar
7.4.09
Querido
De novo.
Vou te conhecer vou me encantar pela sua imagem. Construir um enredo rico do que eu quiser pra contar os elementos da foto.
A criança dormindo, o vidro quebrado da janela, as marcas no seu rosto.
Seu passado, uma vida pregressa de que eu faço parte sem conhecer. Referências da cidade que partilhamos. As diferenças serão ignoradas. Vai ser tão bom dessa vez. Vamos trocar impressões sobre amigos, lugares, idades, segredos e amar nossa memória conjunta.
Temos tudo em comum.
Vou me ver no espelho do seu rosto, entrar em cada marca de expressão e, sem pensar, vou achar que aquilo tudo ali sou eu.
Com o tempo passando vou tocar a imagem. Mergulhar primeiro a mão, o braço, cabeça, um ombro, o outro e aí meu corpo todo vai ser engolido pelo lago espelhado que será então a tua cara de lado me olhando fundo, deitado numa cama, depois de tão poucas visitas perto do tempo de duas vidas de uns sessenta anos, somadas.
Lá dentro sem ar, vou me debater tentando atinar em milissegundos quem é você e quem sou eu e onde começa ou termina cada coisa que já perdi de vista. Meus limites serão alargados demais e mais que da última vez, porque sem saber na terra de quem estou pisando, vou riscar o chão todo irregular.
Vou deixar acontecer. Doer até cansar. Vamos não acreditar, como assim, como isso tudo.
Vou buscar a fotografia velha, aquela primeira, esquecida de como parecia um mundo misterioso, grande e interessante e estalando de novo quando a descobri das primeiras vezes. O cenário vai ser já o real de fato, vou saber de cor teu rosto, vou ter mil vezes alimentado teu filho e contado pros nossos amigos o porquê da janela quebrada.
Eu vou chorar, e você vai sentir muita raiva.
Vamos deixar chegar o ponto que é impossível dar alguma coisa mais. Ninguém pára antes.
A gente quer é saber como parece a última gota.
Eu vou pra uma casa vazia, você vai ver parte da sua escoando pela porta, nossas coisas se separando umas das outras.
Tempos depois. Busco novamente a sua imagem. Filho, janela, rugas.
Suspiro de alívio.
E lamento.
Vou te conhecer vou me encantar pela sua imagem. Construir um enredo rico do que eu quiser pra contar os elementos da foto.
A criança dormindo, o vidro quebrado da janela, as marcas no seu rosto.
Seu passado, uma vida pregressa de que eu faço parte sem conhecer. Referências da cidade que partilhamos. As diferenças serão ignoradas. Vai ser tão bom dessa vez. Vamos trocar impressões sobre amigos, lugares, idades, segredos e amar nossa memória conjunta.
Temos tudo em comum.
Vou me ver no espelho do seu rosto, entrar em cada marca de expressão e, sem pensar, vou achar que aquilo tudo ali sou eu.
Com o tempo passando vou tocar a imagem. Mergulhar primeiro a mão, o braço, cabeça, um ombro, o outro e aí meu corpo todo vai ser engolido pelo lago espelhado que será então a tua cara de lado me olhando fundo, deitado numa cama, depois de tão poucas visitas perto do tempo de duas vidas de uns sessenta anos, somadas.
Lá dentro sem ar, vou me debater tentando atinar em milissegundos quem é você e quem sou eu e onde começa ou termina cada coisa que já perdi de vista. Meus limites serão alargados demais e mais que da última vez, porque sem saber na terra de quem estou pisando, vou riscar o chão todo irregular.
Vou deixar acontecer. Doer até cansar. Vamos não acreditar, como assim, como isso tudo.
Vou buscar a fotografia velha, aquela primeira, esquecida de como parecia um mundo misterioso, grande e interessante e estalando de novo quando a descobri das primeiras vezes. O cenário vai ser já o real de fato, vou saber de cor teu rosto, vou ter mil vezes alimentado teu filho e contado pros nossos amigos o porquê da janela quebrada.
Eu vou chorar, e você vai sentir muita raiva.
Vamos deixar chegar o ponto que é impossível dar alguma coisa mais. Ninguém pára antes.
A gente quer é saber como parece a última gota.
Eu vou pra uma casa vazia, você vai ver parte da sua escoando pela porta, nossas coisas se separando umas das outras.
Tempos depois. Busco novamente a sua imagem. Filho, janela, rugas.
Suspiro de alívio.
E lamento.
1.4.09
Novamente no escuro. Molhado esse escuro, um frio gelado aqui. Passa o dedo no vidro úmido faz uma letra. Aí lembra que não tá sozinha ali, que vergonha.
Vestido mais certinho esse meu, credo gente. Botei pra ele ver, e ele finge que não viu. Eu também nem precisava vir aqui, mas vim só pra.
É, vim, eu gosto.
Venho aqui me achando culpada, mas não é dele não, é da carne mesmo. Um lugar desse que matou os bichos e botou eles dependurados pra gente escolher quem vai comer. Uma sangueira danada pelos azulejos, aquele cheiro agudo e verde.
Ele tem saudade, não sabe meu nome. Casou faz pouco, escutei o patrão falando "tá nervoso, Evandro?". Ele tava, o sofá ia chegar na quinta. Quando voltei de viagem já tinha aliança no dedo. Mudou nadinha o enviesado de olhar. Tão devoto que se eu pedisse o boi inteiro me dava de presente. Respeita, ele. Respeita tudo. Não dá nada além do sorriso que só eu ganho, o olho meio peixe-bobo assim, tão parcimonioso, mas eu sou viva demais, eu pesco tudo.
Dá um setecentos gramas de coxão mole por favor?
É que o patinho tá tão bonito hoje moça.
Tá certo, então a gente leva patinho, você fala, a gente leva patinho.
Tá bom assim? Oi, tá ok. Tira bem a gordurinha. Bom dia como vai? Até amanhã obrigado pra senhora também.
Ele não tem vergonha de sangue velho na roupa. Redinha no cabelo. O lugar submundano, vida de megarefe. Não intimida, o Evandro. Comigo não. Fica lá fazendo o Musashi do estabelecimento: um pé distante do outro dois palmos, coluna reta e pescoço encaixado, faca na mão aguardando a ordem, muito concentrado, olhando por debaixo a minha cara vermelha.
Um dia
Deu as cinco e meia
Isso é hora de comprar carne?
Eu fui
Quele calor de panela de pressão, raio de verão comprido
Eu fui lá
A senhora
Boa tarde, que calor, como é mesmo o seu nome, Evandro?
Estamos fechando já moça. A senhora vai querer
Eu vou
Vai querer? A senhora
Sim, vou querer
Faz favor então Madame
Vestido mais certinho esse meu, credo gente. Botei pra ele ver, e ele finge que não viu. Eu também nem precisava vir aqui, mas vim só pra.
É, vim, eu gosto.
Venho aqui me achando culpada, mas não é dele não, é da carne mesmo. Um lugar desse que matou os bichos e botou eles dependurados pra gente escolher quem vai comer. Uma sangueira danada pelos azulejos, aquele cheiro agudo e verde.
Ele tem saudade, não sabe meu nome. Casou faz pouco, escutei o patrão falando "tá nervoso, Evandro?". Ele tava, o sofá ia chegar na quinta. Quando voltei de viagem já tinha aliança no dedo. Mudou nadinha o enviesado de olhar. Tão devoto que se eu pedisse o boi inteiro me dava de presente. Respeita, ele. Respeita tudo. Não dá nada além do sorriso que só eu ganho, o olho meio peixe-bobo assim, tão parcimonioso, mas eu sou viva demais, eu pesco tudo.
Dá um setecentos gramas de coxão mole por favor?
É que o patinho tá tão bonito hoje moça.
Tá certo, então a gente leva patinho, você fala, a gente leva patinho.
Tá bom assim? Oi, tá ok. Tira bem a gordurinha. Bom dia como vai? Até amanhã obrigado pra senhora também.
Ele não tem vergonha de sangue velho na roupa. Redinha no cabelo. O lugar submundano, vida de megarefe. Não intimida, o Evandro. Comigo não. Fica lá fazendo o Musashi do estabelecimento: um pé distante do outro dois palmos, coluna reta e pescoço encaixado, faca na mão aguardando a ordem, muito concentrado, olhando por debaixo a minha cara vermelha.
Um dia
Deu as cinco e meia
Isso é hora de comprar carne?
Eu fui
Quele calor de panela de pressão, raio de verão comprido
Eu fui lá
A senhora
Boa tarde, que calor, como é mesmo o seu nome, Evandro?
Estamos fechando já moça. A senhora vai querer
Eu vou
Vai querer? A senhora
Sim, vou querer
Faz favor então Madame
30.3.09
eu e minha boca grande
conta mais daquela moça.
então não acha que ela merece né.
ela não é suficientemente boa?
bela bunda, bom coração?
pergunta só pra ela. ela vai falar a tarde inteira, sem soltar uma palavra.
ou senão, chega lá com a faca, o pó de café, água quente e uma corda que amarre bem forte as mãos dela. aí ela conversa com você.
então não acha que ela merece né.
ela não é suficientemente boa?
bela bunda, bom coração?
pergunta só pra ela. ela vai falar a tarde inteira, sem soltar uma palavra.
ou senão, chega lá com a faca, o pó de café, água quente e uma corda que amarre bem forte as mãos dela. aí ela conversa com você.
29.3.09
Factótum
Pior coisa
é dever um favor a alguém
Olha Virgílio
a mim você não deve nada não
Só a sua perna e
------------------------------------
Chico Alvim
Pior coisa
é dever um favor a alguém
Olha Virgílio
a mim você não deve nada não
Só a sua perna e
------------------------------------
Chico Alvim
28.3.09
os vizinhos lá embaixo
que bom, eles falam português
o doce da minha pele hoje escureceu
ficou mole e antigo
quando eu era criança, daquela vez
deixei passar como se não fosse nada
com medo de não poder mais ser
mas dessa vez doeu, irmão
que bom, eles falam português
o doce da minha pele hoje escureceu
ficou mole e antigo
quando eu era criança, daquela vez
deixei passar como se não fosse nada
com medo de não poder mais ser
mas dessa vez doeu, irmão
26.3.09
oração da meia noite
i ran through you
you escaped
Quando voltei você não estava.
Estava mas não tinha dinheiro.
Tinha dois reais em moedas de 25.
Mas não estava disposto.
Tomou o vinho demasiado antigo da festa daquela mulher que reluta em envelhecer.
Apareceu por detrás de mim, mal me deixou entrar em casa.
Deixou, mas procurou distrair. Cruzou as pernas. Cruzou os dedos.
Fez figa e pediu pra São Longuinho te desaparecer dali.
Também funciona.
Não quis comer nada, deixou sobrar o sal.
Suou frio.
Baixou o olhar até cair no próprio pé, dividido entre transpirar, responder, raciocinar e se manter existindo.
Negou. Que nada disso não nem tanto não era eu.
Estivemos por tanto tempo nessa casa que eu corri da minha vontade de fugir de medo. Eu fiquei mais um pouco.
Pelos anos todos antes do que não se poderia dizer nunca jamais porque não, porque não e está acabado, estivemos nós, sérios e fingidos.
Escutando a mesma música e não sentindo fome.
Trocando jantar por televisão.
Tamos aí.
Esperando passar.
you escaped
Quando voltei você não estava.
Estava mas não tinha dinheiro.
Tinha dois reais em moedas de 25.
Mas não estava disposto.
Tomou o vinho demasiado antigo da festa daquela mulher que reluta em envelhecer.
Apareceu por detrás de mim, mal me deixou entrar em casa.
Deixou, mas procurou distrair. Cruzou as pernas. Cruzou os dedos.
Fez figa e pediu pra São Longuinho te desaparecer dali.
Também funciona.
Não quis comer nada, deixou sobrar o sal.
Suou frio.
Baixou o olhar até cair no próprio pé, dividido entre transpirar, responder, raciocinar e se manter existindo.
Negou. Que nada disso não nem tanto não era eu.
Estivemos por tanto tempo nessa casa que eu corri da minha vontade de fugir de medo. Eu fiquei mais um pouco.
Pelos anos todos antes do que não se poderia dizer nunca jamais porque não, porque não e está acabado, estivemos nós, sérios e fingidos.
Escutando a mesma música e não sentindo fome.
Trocando jantar por televisão.
Tamos aí.
Esperando passar.
23.3.09
6.3.09
i'm timeless like a broken watch
and make money like fred astaire/ i see that you've come to resist me/ i'm a pitbull in time
Se eu quiser me dizer em música, seria lista grande.
Contudo, and between the bars, contando secundariamente com as alfabetizantes P |P, P e P| -- feliz coincidência de ancestrais, sobrenomes e os do sujeito que casou comigo -- tudo se putaputamente encaixa.
Não? Cê não liga né, TÁ.
Ok. Estou dizendo, preste atenção: coma menos carne, mais melancia, gaste uma grana a menos aqui outra a mais acolá. Escute que teu intestino fala garoto, resguarde. Ou eu, fígado mulher, avance pra esquerda.
Acalme o frenesi de estar na rua sexta-noite.
O miolo de casa pode te presentear com uma coisa ou duas--gratificantes--deliciosas--recheias--peitorais--fuderosas--epifânicas.
Tome uma dose. Brinde comigo aí.
Um suco de tomate, um amor. Um programa. Todos precisamos disso. Somos a matéria esponjosa vibrante carente querendo oferecer, precisamos de ternura e ação. Diálogo. Uns mais outros menos.
Ação e acontecimentos no mais das vezes. Julgamentos o menos possível.
Quero viver e queres tu, eu sei,um ou mais lances sem ter que explicar porque faço, sou, ajo, interfiro, sofro, choro, desapareço, espanto e inclusive arrepio.
When you can't and you won't and you don't stop.
E que admiro o tal homem se fazer em si. O norteamericano mexicano-balcânico tocando quase sozinho a japonesa morenaça do samba, a islandesa, o gênio folk que morreu muito antes a hora.
Billie and Jimmi.
Apaixono muito fácil muito forte são eles tão lindos delícia tão tããão necessariamente amáveis: veja o que eles fizeram!
Eles TÊM que ser amados por isso agora.
I was made of tesouras de cortar tecido, frango e papel:
uma pra cada coisa, que fique claro.
Sempre tesouras: immmade of scissors *cutsounds encadeados editados * ouvi tudo desde minininha por irmãs simples meninas maiores sem saber nada da vida mas me apertando me amando e me explicando sem esforço: escute bem isabel maria abra sua mente laurie anderson sarah vaughan ravel keith jarrett arrigo barnabé / o feminino não regulou a rodinha de porrada dos shows que delícia que liberdade essencial que energia perfeita dispersada / a amiga de pré-primeira infância de festinhas com leite e nescau, além das piranhagens da barbie e proteção na escola, mais velha mais frágil mais nerd que eu: meta-se comigo primeiro. Quer valer? me deu tanta música em troca não seria o que sou. obrigada cerejinha.
Comprei um postal da Paulista, pra dar sorte.
Se eu quiser me dizer em música, seria lista grande.
Contudo, and between the bars, contando secundariamente com as alfabetizantes P |P, P e P| -- feliz coincidência de ancestrais, sobrenomes e os do sujeito que casou comigo -- tudo se putaputamente encaixa.
Não? Cê não liga né, TÁ.
Ok. Estou dizendo, preste atenção: coma menos carne, mais melancia, gaste uma grana a menos aqui outra a mais acolá. Escute que teu intestino fala garoto, resguarde. Ou eu, fígado mulher, avance pra esquerda.
Acalme o frenesi de estar na rua sexta-noite.
O miolo de casa pode te presentear com uma coisa ou duas--gratificantes--deliciosas--recheias--peitorais--fuderosas--epifânicas.
Tome uma dose. Brinde comigo aí.
Um suco de tomate, um amor. Um programa. Todos precisamos disso. Somos a matéria esponjosa vibrante carente querendo oferecer, precisamos de ternura e ação. Diálogo. Uns mais outros menos.
Ação e acontecimentos no mais das vezes. Julgamentos o menos possível.
Quero viver e queres tu, eu sei,um ou mais lances sem ter que explicar porque faço, sou, ajo, interfiro, sofro, choro, desapareço, espanto e inclusive arrepio.
When you can't and you won't and you don't stop.
E que admiro o tal homem se fazer em si. O norteamericano mexicano-balcânico tocando quase sozinho a japonesa morenaça do samba, a islandesa, o gênio folk que morreu muito antes a hora.
Billie and Jimmi.
Apaixono muito fácil muito forte são eles tão lindos delícia tão tããão necessariamente amáveis: veja o que eles fizeram!
Eles TÊM que ser amados por isso agora.
I was made of tesouras de cortar tecido, frango e papel:
uma pra cada coisa, que fique claro.
Sempre tesouras: immmade of scissors *cutsounds encadeados editados * ouvi tudo desde minininha por irmãs simples meninas maiores sem saber nada da vida mas me apertando me amando e me explicando sem esforço: escute bem isabel maria abra sua mente laurie anderson sarah vaughan ravel keith jarrett arrigo barnabé / o feminino não regulou a rodinha de porrada dos shows que delícia que liberdade essencial que energia perfeita dispersada / a amiga de pré-primeira infância de festinhas com leite e nescau, além das piranhagens da barbie e proteção na escola, mais velha mais frágil mais nerd que eu: meta-se comigo primeiro. Quer valer? me deu tanta música em troca não seria o que sou. obrigada cerejinha.
Comprei um postal da Paulista, pra dar sorte.
4.3.09
QUE TU
fostes o começo do final de um meio-final aos trancos escolhido, um termo chegado sem saber.
Tu és isso aí, a gente sabe.
Mas que serias toda uma montanha inacreditavelmente virada pro lado contrário com umas pedras de isopor pintadas por crianças de seis anos, outras vezes de água e outras de brasa e lixa ferro.
Com matos vermelhos e roxos salpicados de buraquinhos de celofane verde e uma cachoeira de mar escondida, um veleiro de 23 pés se batendo nas margens e no casco teu nome: VEM_DORMIR_AQUI.
Que serias um caranguejo de um metro e oitenta e tal me examinando mudo calado com a puã sufocando meu pescoço de peixe boi menina. Eu desafiando: APERTA_MAIS_DUVIDO.
Que pesado e boa pinta como és eu pensaria duas três e quarenta e sete mil vezes antes. Durante também.
Que eras uma coisa ancestral a encontrar, uma alma antiga pra colar na minha alma bebê. Que eras o caboclo mais velho de nossa tribo que chorou quando te mostrei a música de festa da nossa família. E você lembrou. Repetidas vezes. Você não sabe, mas vi eles em volta de nós naquele primeiro mês, na avenida suja que fizeram passar por cima. Que sentiríamos saudade disso juntos, eu disfarçando em alegria pra não machucar teu coração cansado.
Que tu levarias anos pra me deixar encostar o entre dos meus dedos no entre dos teus dedos, com todas as letras e sufocos e descaralhações parceiras e risos e requeijão feito em casa.
Que mesmo velho tu nascerias muito tempo depois de mim.
Que deixarias por fim que eu enchesse tua casa de verdes e chás, e madeira, miniaturas e entradinhas e coisas que você jamais pensou que ia sentir falta.
Ninguém sabia.
Pelomenos eu não.
Não sei uma cacetada de coisas também.
Tu és isso aí, a gente sabe.
Mas que serias toda uma montanha inacreditavelmente virada pro lado contrário com umas pedras de isopor pintadas por crianças de seis anos, outras vezes de água e outras de brasa e lixa ferro.
Com matos vermelhos e roxos salpicados de buraquinhos de celofane verde e uma cachoeira de mar escondida, um veleiro de 23 pés se batendo nas margens e no casco teu nome: VEM_DORMIR_AQUI.
Que serias um caranguejo de um metro e oitenta e tal me examinando mudo calado com a puã sufocando meu pescoço de peixe boi menina. Eu desafiando: APERTA_MAIS_DUVIDO.
Que pesado e boa pinta como és eu pensaria duas três e quarenta e sete mil vezes antes. Durante também.
Que eras uma coisa ancestral a encontrar, uma alma antiga pra colar na minha alma bebê. Que eras o caboclo mais velho de nossa tribo que chorou quando te mostrei a música de festa da nossa família. E você lembrou. Repetidas vezes. Você não sabe, mas vi eles em volta de nós naquele primeiro mês, na avenida suja que fizeram passar por cima. Que sentiríamos saudade disso juntos, eu disfarçando em alegria pra não machucar teu coração cansado.
Que tu levarias anos pra me deixar encostar o entre dos meus dedos no entre dos teus dedos, com todas as letras e sufocos e descaralhações parceiras e risos e requeijão feito em casa.
Que mesmo velho tu nascerias muito tempo depois de mim.
Que deixarias por fim que eu enchesse tua casa de verdes e chás, e madeira, miniaturas e entradinhas e coisas que você jamais pensou que ia sentir falta.
Ninguém sabia.
Pelomenos eu não.
Não sei uma cacetada de coisas também.
O passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção. Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer? Se assim é, existe um encontro secreto, marcado entre as gerações precedentes e a nossa. Alguém na terra está à nossa espera. Nesse caso, como a cada geração, foi-nos concedida uma frágil força messiânica para a qual o passado dirige um apelo. Esse apelo não pode ser rejeitado impunemente.
--------------------
Walter Benjamin
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Walter Benjamin
2.3.09
sem
Quando não durmo.
E incríveis pensamentos lancinantes me ocorrem, uma tremenda correria de idéias assombrosas me afogando.
Então durmo menos ainda.
O sono foge, salta pra longe e se esconde, acho que lá em cima na prateleira de livros.
Não descanso.
Dá trabalho o embate entre uma idéia dolorosa e o antídoto, que preciso mover muitos músculos pra gerar.
É o medo.
Tem na noite o silêncio, o fresco e a solidão, que são pra adormecer a gente mas às vezes de malandragem, eles escandalizam.
Uma coisa explodiu na rua, meu coração desalinhou.
Queria estar sonhando como todos os outros.
Da minha virtude, tudo espanta.
Me ataca uma fome devorante de estômago e me aperta o peito um medo de cortar o coração. Tento me sentar no meu próprio colo mas hoje é impossível.
Calejado tudo em volta. Meu corpo já não tem mais tão pouco tempo.
Crio um bode dentro de minha cabeça. Alimento-o com retalhos de medo e conservadorismo. O bode cresce, e rumina. Às vezes dá uma volta, se encolhe e dorme num canto do oco onde mora. Outras vezes ele não está sozinho, mas espremido entre outros animais e gentes que me ocorrem.
Muitas plantas. Grandes mesmo.
Anguilas.
Escritores mortos.
Comidas que não deixam sossegar.
Tarefas e desculpas pendentes.
Interioranismos.
Jogos e brincadeiras de infância.
Sustos acumulados, imprudências, festejos.
Satisfações.
Uma fieira comprida de bobagens.
Um dia dou cabo desse bode. Faço uma festa e dou ele de comer pros anjinhos de carnaval.
E incríveis pensamentos lancinantes me ocorrem, uma tremenda correria de idéias assombrosas me afogando.
Então durmo menos ainda.
O sono foge, salta pra longe e se esconde, acho que lá em cima na prateleira de livros.
Não descanso.
Dá trabalho o embate entre uma idéia dolorosa e o antídoto, que preciso mover muitos músculos pra gerar.
É o medo.
Tem na noite o silêncio, o fresco e a solidão, que são pra adormecer a gente mas às vezes de malandragem, eles escandalizam.
Uma coisa explodiu na rua, meu coração desalinhou.
Queria estar sonhando como todos os outros.
Da minha virtude, tudo espanta.
Me ataca uma fome devorante de estômago e me aperta o peito um medo de cortar o coração. Tento me sentar no meu próprio colo mas hoje é impossível.
Calejado tudo em volta. Meu corpo já não tem mais tão pouco tempo.
Crio um bode dentro de minha cabeça. Alimento-o com retalhos de medo e conservadorismo. O bode cresce, e rumina. Às vezes dá uma volta, se encolhe e dorme num canto do oco onde mora. Outras vezes ele não está sozinho, mas espremido entre outros animais e gentes que me ocorrem.
Muitas plantas. Grandes mesmo.
Anguilas.
Escritores mortos.
Comidas que não deixam sossegar.
Tarefas e desculpas pendentes.
Interioranismos.
Jogos e brincadeiras de infância.
Sustos acumulados, imprudências, festejos.
Satisfações.
Uma fieira comprida de bobagens.
Um dia dou cabo desse bode. Faço uma festa e dou ele de comer pros anjinhos de carnaval.
19.2.09
what a sordid/splendid life
Passei um veneno. Veneno mesmo, real. Alguém há muito tempo me disse sem palavras: estou botando um pozinho na sua bebida e você vai deixar. Deixei.
Seis dias e seis noites vivi feito um cachorro grande, ganindo de dor, lambendo as feridas, beliscando o matinho dos canteiros porque a natureza manda fazer isso. Esperando a doença tomar conta, crescer arder arrepiar doer e ir embora muito devagarinho. Não adianta correr, ela é necessária.
Anos vivendo no de repente. Correndo por uma espiral sem pensar, sem muito planejar. E agora? Agora cortaram as cordas, vieram com a machadinha desfazendo um pedaço da teia que tem, não por acaso, a minha idade.
No vazio eu parei: e agora eagoraeagora?? Pensei no que fazer sem meu veneno que já corria freestyle nesse corpinho, tão natural.
Eu quis andar além, quis fazer de um tudo ao mesmo tempo, quis ser incansável inocente-pura e comer tudo, ter tudo assim de um jeito que fosse uma comunhão especial com o mundo impossível. Era pra poder a gente viver de som e calor. Só de amigos, sucos e netos, receitas compartilhadas, cervejas antes do almoço, danças no escuro a noite toda.
Eu quis querer uma outra coisa. Não acreditar que o perfeitamente normal é deliciosamente perfeito na imprevisibilidade da rotina. Só pra quem assiste os detalhes mínimos.
Nas minhas costas nem um lanho. Não levei chicotadas pra passar de fase. Não rasparam minha cabeça nem fiquei meses trancada.
ainda assim. ainda assim.
Minhas unhas crescem muito todo mês, meu cabelo parece capim, vejo todas as cores bem e respiro pelas duas narinas. Seguramente estou num caminho de saúde. Nunca me droguei a sério. Nunca fiz sofrer demais mãe e pai. Me furaram as orelhas quando pequena, não me batizaram. Segui sem essa pecha.
Estou aqui, presente, viva, subindo, sussurrando de leve buscando sua mão de madrugada te cobrindo com o lençol, ouço seu resmungo ou qualquer coisa que você fale durante o sono. Eu sou tua mãe, você é meu pai. Apareci uma noite, você mesmo apareceu eu nunca saberia que um dia.
Era tão cru. Tão rasgante estraçalhante tudo era. Tudo descia tão quadrado e imenso pra minha garganta de adolescente. Eu achava que era fácil, mas lá que era difícil, era muito mais difícil.
Congelaram meus pés, nariz.
Mas, opa, cheguei de novo. Troquei de pele. Subi um dan. Ganhei umas penas novas, larguei uma parte dos cabos. Eu continuo eu insisto. No dia que eu for morrer eu vou pensar: mas foi só isso? Era tão simples e eu não sabia. Nesse dia eu vou ter que dizer pra todos que eu amo que eu os amo, mas muito baixo nos ouvidos, eles vão entrar no meu quarto em fila pra ouvir isso que sempre souberam. Irresistível é continuar continuando. De uma maneira sem fim. Que mesmo quando chegar essa hora eu não vou acabar, vou insistir em estar por aí tudo feito pó feito pedra feito mesa da cozinha e sombra de árvore.
Seis dias e seis noites vivi feito um cachorro grande, ganindo de dor, lambendo as feridas, beliscando o matinho dos canteiros porque a natureza manda fazer isso. Esperando a doença tomar conta, crescer arder arrepiar doer e ir embora muito devagarinho. Não adianta correr, ela é necessária.
Anos vivendo no de repente. Correndo por uma espiral sem pensar, sem muito planejar. E agora? Agora cortaram as cordas, vieram com a machadinha desfazendo um pedaço da teia que tem, não por acaso, a minha idade.
No vazio eu parei: e agora eagoraeagora?? Pensei no que fazer sem meu veneno que já corria freestyle nesse corpinho, tão natural.
Eu quis andar além, quis fazer de um tudo ao mesmo tempo, quis ser incansável inocente-pura e comer tudo, ter tudo assim de um jeito que fosse uma comunhão especial com o mundo impossível. Era pra poder a gente viver de som e calor. Só de amigos, sucos e netos, receitas compartilhadas, cervejas antes do almoço, danças no escuro a noite toda.
Eu quis querer uma outra coisa. Não acreditar que o perfeitamente normal é deliciosamente perfeito na imprevisibilidade da rotina. Só pra quem assiste os detalhes mínimos.
Nas minhas costas nem um lanho. Não levei chicotadas pra passar de fase. Não rasparam minha cabeça nem fiquei meses trancada.
ainda assim. ainda assim.
Minhas unhas crescem muito todo mês, meu cabelo parece capim, vejo todas as cores bem e respiro pelas duas narinas. Seguramente estou num caminho de saúde. Nunca me droguei a sério. Nunca fiz sofrer demais mãe e pai. Me furaram as orelhas quando pequena, não me batizaram. Segui sem essa pecha.
Estou aqui, presente, viva, subindo, sussurrando de leve buscando sua mão de madrugada te cobrindo com o lençol, ouço seu resmungo ou qualquer coisa que você fale durante o sono. Eu sou tua mãe, você é meu pai. Apareci uma noite, você mesmo apareceu eu nunca saberia que um dia.
Era tão cru. Tão rasgante estraçalhante tudo era. Tudo descia tão quadrado e imenso pra minha garganta de adolescente. Eu achava que era fácil, mas lá que era difícil, era muito mais difícil.
Congelaram meus pés, nariz.
Mas, opa, cheguei de novo. Troquei de pele. Subi um dan. Ganhei umas penas novas, larguei uma parte dos cabos. Eu continuo eu insisto. No dia que eu for morrer eu vou pensar: mas foi só isso? Era tão simples e eu não sabia. Nesse dia eu vou ter que dizer pra todos que eu amo que eu os amo, mas muito baixo nos ouvidos, eles vão entrar no meu quarto em fila pra ouvir isso que sempre souberam. Irresistível é continuar continuando. De uma maneira sem fim. Que mesmo quando chegar essa hora eu não vou acabar, vou insistir em estar por aí tudo feito pó feito pedra feito mesa da cozinha e sombra de árvore.
7.2.09
tom zé
o brilho da sua boca
é maior
é três vezes mais
que a angústia inquieta
diária -- semanal -- constante
do --
terei eu grana?
até o fim do mês?
poderei pagar a unimed?
me fodo bonito dessa vez?
tudo que eu quero:
não sei dizer o que é
................
(eu te espero na porta das manhãs porque //
o grito dos teus olhos é mais logo que o braço da floresta)
é maior
é três vezes mais
que a angústia inquieta
diária -- semanal -- constante
do --
terei eu grana?
até o fim do mês?
poderei pagar a unimed?
me fodo bonito dessa vez?
tudo que eu quero:
não sei dizer o que é
................
(eu te espero na porta das manhãs porque //
o grito dos teus olhos é mais logo que o braço da floresta)
dona vicina
a pele do braço dela
me emociona
uma mulher velha
cheia de história
humor, complacência, dignidade
ela me faz lembrar eu mesma
me comove como
se o único remédio fosse
eu me abraçar intensamente
repetindo:
você um dia vai acordar assim
me emociona
uma mulher velha
cheia de história
humor, complacência, dignidade
ela me faz lembrar eu mesma
me comove como
se o único remédio fosse
eu me abraçar intensamente
repetindo:
você um dia vai acordar assim
6.2.09
4.2.09
saiba
you should have heard what i heard
partículas de obra por todo canto
eles constroem pra depois destruir
if i could pull the nerves from my skin
i would
façam coisas muito pouco duráveis
pra ter que comprar um novo cada vez num menor espaço de tempo
jogar fora
comprar novo
jogar fora
na montanha
comprar novo
eu quero
eu preciso
jogo fora
compro outro
you should have seen what i saw
relativizando o esperado
expectativizando a relação
vamos
venha
vem com tudo
não pára
mas saiba
tudo pode não sair do seu jeito
existem 150 outras partículas agindo ao mesmo tempo que as suas
to relativizando pra ficar mais fácil de entender
tudo depende
e não
de você
por isso
vai
com tudo
não espera
nem regula
bota pra tocar aquela
que move desde o centro de tudo que você é e está
tira um por um os elásticos presos nos seus ganchinhos
tira aí, eu espero
agora corre muito
foge
assim
vai
*can you push it any further?*
partículas de obra por todo canto
eles constroem pra depois destruir
if i could pull the nerves from my skin
i would
façam coisas muito pouco duráveis
pra ter que comprar um novo cada vez num menor espaço de tempo
jogar fora
comprar novo
jogar fora
na montanha
comprar novo
eu quero
eu preciso
jogo fora
compro outro
you should have seen what i saw
relativizando o esperado
expectativizando a relação
vamos
venha
vem com tudo
não pára
mas saiba
tudo pode não sair do seu jeito
existem 150 outras partículas agindo ao mesmo tempo que as suas
to relativizando pra ficar mais fácil de entender
tudo depende
e não
de você
por isso
vai
com tudo
não espera
nem regula
bota pra tocar aquela
que move desde o centro de tudo que você é e está
tira um por um os elásticos presos nos seus ganchinhos
tira aí, eu espero
agora corre muito
foge
assim
vai
*can you push it any further?*
1.2.09
it ain't me babe
ela não esperou nada ficou só sentindo tudo que era dela quase só dela por vários dias. passou um tempão só sendo, e cuidando de algumas coisas poucas.
não sabia dizer se estava bem assim porque sabia que uma hora não estaria mais sozinha, ou porque estava bem sozinha mesmo.
era o que ? o que que você pensava então, garotinha?
todo mundo fica querendo ser gentil com você e tem aquele sujeito. aquele. que você não sabe o que ele quer.
um desmaio de expectativa.
deu um buraco na intenção de fazer tudo certeiro.
tudo no esquema, vamos sentar no sofá e esperar.
melhor, vamos trabalhar enquanto isso. assim a gente não pensa.
todo o self-combinado saltou pela janela com uma palavra, só uma, tão pequena e certeira na sua segurança.
tinha mexido com cebola, deu aquela dor de cabeça
e a palavrinha fez o favor de espalhar a dor pro resto do corpo.
não sou eu, amor.
não sou eu.
não sabia dizer se estava bem assim porque sabia que uma hora não estaria mais sozinha, ou porque estava bem sozinha mesmo.
era o que ? o que que você pensava então, garotinha?
todo mundo fica querendo ser gentil com você e tem aquele sujeito. aquele. que você não sabe o que ele quer.
um desmaio de expectativa.
deu um buraco na intenção de fazer tudo certeiro.
tudo no esquema, vamos sentar no sofá e esperar.
melhor, vamos trabalhar enquanto isso. assim a gente não pensa.
todo o self-combinado saltou pela janela com uma palavra, só uma, tão pequena e certeira na sua segurança.
tinha mexido com cebola, deu aquela dor de cabeça
e a palavrinha fez o favor de espalhar a dor pro resto do corpo.
não sou eu, amor.
não sou eu.
29.1.09
Ele me deu um beijo na boca e me disse:
A vida é oca como a touca de um bebê sem cabeça
E eu ri à beça
E ele: como uma toca de raposa bêbada
E eu disse: chega da sua conversa
De poça sem fundo
Eu sei que o mundo
É um fluxo sem leito
E só no oco do seu peito
Que corre um rio
.......
Ele
A vida é oca como a touca de um bebê sem cabeça
E eu ri à beça
E ele: como uma toca de raposa bêbada
E eu disse: chega da sua conversa
De poça sem fundo
Eu sei que o mundo
É um fluxo sem leito
E só no oco do seu peito
Que corre um rio
.......
Ele
28.1.09
Não fiz a cama hoje. Jantei porcaria e assisti novela.
Não lavei a roupa suja, não tirei o lixo e tomei café o dia inteiro, caneca cheia.
Assisti ao mesmo filme, repetindo a fala dos personagens com a entonação e o tempo perfeitos.
Não tirei a colcha do varal, não liguei pra empregada.
Mal trabalhei. Passei boa parte do dia indo e voltando da área de serviço, vigiando o crescimento impressionante da planta, que ficou feliz porque voltei de viagem.
Não fui ao banco, nem resolvi o problema do filtro. Comprei créditos pro telefone e não inseri, comprei pão de queijo e deixei virar pedra.
Imaginei muito, muito, muito.
Repetidas vezes pensei no sonho da noite passada, a primeira sozinha nessa casa não escolhida por mim. Mas que decerto me escolheu.
Não me chateou a obra, o barulho da geladeira, e aproveitei o temporal pra ir na esquina pisando na poça como se fosse sem querer, na tentativa de estender as férias.
Comprei água pro mendigo, depois achei que o jornaleiro me desaprovou por isso.
Não comprei a passagem de volta, não contei pra minha chefe que não vou mais. Não me incomodei. Senti dor nas costas e não reclamei.
Me sabotei um pouco, mas foi só de manhã. Consegui reverter depois do almoço. Chorei sentida, sabendo que foi da tpm, e não pensei em ter ciúme.
Não li jornal, e isso não é novidade.
Não contei com a minha beleza e não esperei muito de coisa alguma.
Acordei em cima da hora, fui deitar tarde, e não acertei o despertador.
Não pude evitar pensamentos que é melhor não. Mas escrevi.
Reinei dentro da minha casa e senti o dia inteiro, todas as suas horas em mim.
Adormeci fazendo palavras cruzadas.
Não lavei a roupa suja, não tirei o lixo e tomei café o dia inteiro, caneca cheia.
Assisti ao mesmo filme, repetindo a fala dos personagens com a entonação e o tempo perfeitos.
Não tirei a colcha do varal, não liguei pra empregada.
Mal trabalhei. Passei boa parte do dia indo e voltando da área de serviço, vigiando o crescimento impressionante da planta, que ficou feliz porque voltei de viagem.
Não fui ao banco, nem resolvi o problema do filtro. Comprei créditos pro telefone e não inseri, comprei pão de queijo e deixei virar pedra.
Imaginei muito, muito, muito.
Repetidas vezes pensei no sonho da noite passada, a primeira sozinha nessa casa não escolhida por mim. Mas que decerto me escolheu.
Não me chateou a obra, o barulho da geladeira, e aproveitei o temporal pra ir na esquina pisando na poça como se fosse sem querer, na tentativa de estender as férias.
Comprei água pro mendigo, depois achei que o jornaleiro me desaprovou por isso.
Não comprei a passagem de volta, não contei pra minha chefe que não vou mais. Não me incomodei. Senti dor nas costas e não reclamei.
Me sabotei um pouco, mas foi só de manhã. Consegui reverter depois do almoço. Chorei sentida, sabendo que foi da tpm, e não pensei em ter ciúme.
Não li jornal, e isso não é novidade.
Não contei com a minha beleza e não esperei muito de coisa alguma.
Acordei em cima da hora, fui deitar tarde, e não acertei o despertador.
Não pude evitar pensamentos que é melhor não. Mas escrevi.
Reinei dentro da minha casa e senti o dia inteiro, todas as suas horas em mim.
Adormeci fazendo palavras cruzadas.
27.1.09
push it
Passa tudo a fazer sentido , de uma forma muito muito íntima, só você pode dizer e se você contar pra alguém já não é a mesma coisa, como um sonho delicioso que você tenta dividir e se decepciona com o resultado.
Isso tudo é essa música, ouve isso cara, esse som veio da alma de um homem que você nunca vai conhecer e ela faz todo sentido. Isso é também andar numas ruas incríveis com umas árvores enormes velhas que nem o tempo. É coletar os fragmentos de outras pessoas e fazer o seu, pescar nelas a beleza delas quando acordam do de sempre e dizem sem querer uma coisa que amam. Andar por horas um bairro gelado, cheio de vodka com refrigerante, não conseguir levantar da cama no dia seguinte. Só pela beleza de estar vivendo. Ter um mundo de água de uma manga madura na boca que você sente o gosto quando fala disso e o olho brilha, eu vi. Descobrirmos que todos nós gostamos desse som, 2 minutos de união entre pessoas absolutamente desconhecidas.
Sentir na sua mão a mão da pessoa, a mini-pessoa quando era a quinta série, na festa junina no corredor ao lado do vestiário, os professores estão bêbados e a gente aproveitando o escuro pra dizer: eu te queria faz muito tempo.
Porque temos alguma coisa que nos une a todos, não todos de uma só vez mas todos em grupos, panelinhas maravilhosas, em momentos, pode ver, a beleza está nisso. Ter gente em volta.
Você tá no trabalho e por mais que aquilo ali não seja você, tem alguém ali que te diz algo além, uma gorda que serve o café e vocês concordam numa maneira de fazer o refogado do feijão. Ou na festa dos caras com quem a gente casou, eu te mostro no youtube aquele vídeo funk das nossas naites de adolescente e cantamos juntas muito felizes, eu e você que pouco nos conhecemos mas simpatizamos tanto.
Uma pausa de minuto, preciso tomar um café, eu sento e espero ser servida pelo homem do lugar, ele me conhece de quase todo dia de obrigados e porfavores, e num sorriso está comigo nessa hora, participando do mundo numa dinâmica em dupla.
.................
Sabe? O outro dia mesmo eu ganhei na loteria. Tipo assim, MUITTA GRANA. Eu fiquei tão excitada que eu corri pra casa e gritei, HEI!Tem alguém aí? Ninguém respondeu.. Mas tudo bem, tudo bem...eu moro sozinha mesmo!
Isso tudo é essa música, ouve isso cara, esse som veio da alma de um homem que você nunca vai conhecer e ela faz todo sentido. Isso é também andar numas ruas incríveis com umas árvores enormes velhas que nem o tempo. É coletar os fragmentos de outras pessoas e fazer o seu, pescar nelas a beleza delas quando acordam do de sempre e dizem sem querer uma coisa que amam. Andar por horas um bairro gelado, cheio de vodka com refrigerante, não conseguir levantar da cama no dia seguinte. Só pela beleza de estar vivendo. Ter um mundo de água de uma manga madura na boca que você sente o gosto quando fala disso e o olho brilha, eu vi. Descobrirmos que todos nós gostamos desse som, 2 minutos de união entre pessoas absolutamente desconhecidas.
Sentir na sua mão a mão da pessoa, a mini-pessoa quando era a quinta série, na festa junina no corredor ao lado do vestiário, os professores estão bêbados e a gente aproveitando o escuro pra dizer: eu te queria faz muito tempo.
Porque temos alguma coisa que nos une a todos, não todos de uma só vez mas todos em grupos, panelinhas maravilhosas, em momentos, pode ver, a beleza está nisso. Ter gente em volta.
Você tá no trabalho e por mais que aquilo ali não seja você, tem alguém ali que te diz algo além, uma gorda que serve o café e vocês concordam numa maneira de fazer o refogado do feijão. Ou na festa dos caras com quem a gente casou, eu te mostro no youtube aquele vídeo funk das nossas naites de adolescente e cantamos juntas muito felizes, eu e você que pouco nos conhecemos mas simpatizamos tanto.
Uma pausa de minuto, preciso tomar um café, eu sento e espero ser servida pelo homem do lugar, ele me conhece de quase todo dia de obrigados e porfavores, e num sorriso está comigo nessa hora, participando do mundo numa dinâmica em dupla.
.................
Sabe? O outro dia mesmo eu ganhei na loteria. Tipo assim, MUITTA GRANA. Eu fiquei tão excitada que eu corri pra casa e gritei, HEI!Tem alguém aí? Ninguém respondeu.. Mas tudo bem, tudo bem...eu moro sozinha mesmo!
16.1.09
15.1.09
10.1.09
I Put a Spell on You - a famosa macumba
Essa versão é com a, incrível desde sempre, Nina Simone. Uma pá de gente gravou essa música. Ouvi pela primeira vez com o Tom Waits, e depois fui descobrir que ela serve a muitas interpretações.
Achei inclusive uma no youtube com aNatacha Atlas, ficou brega e maravilhosa, como grande parte da música árabe do nosso tempo. E quem é do ramo sabe: linda, gordita e adequada no último furo, ela é demais, tudo fica bom com ela.
Tocou em loop aqui em casa no fim de semana. Fiz uma jambalaya. Não custa reforçar.
6.1.09
Vou vender todo o meu dinheiro.
Pretendo prever meu acaso. Pro caso de qualquer pretensão, pra prevenir.
Vou sofrer tudo antecipado. Pra quando chegar a hora que tanto temo, eu pensar: ufa.
Vou planejar todos os meus dias, escrever os afazeres na agenda, pra quando for a hora de fazer eu ficar perdida e mudar a ordem de tudo. Vou fingir com isso que sou metódica, pra eles não terem o que falar.
Vou continuar pegando a mão de outra pessoa no metrô pensando que é a sua, não fique bravo. Não adianta.
Vou tentar não ser mais eu mesma na pior parte, pra ver se eu me engano tanto que acabo virando uma outra melhor que eu.
Vou requentar o café velho e tomar pra espantar o sono. Depois vou tomar um remédio pro enjôo que o café velho deu, e vou acabar adormecendo.
Vou de novo no médico dos desparafusados querendo enganar ele e sair de lá vencida porque o problema é o mesmo sempre.
Não vou beber menos que vários litros de água por dia só porque parece compulsão.
Vou continuar indo no parque fingindo que é pra fazer esporte e sentar escondida pra ver acender a decoração de natal. Com um pouco de vergonha por passar aquele frio todo pra isso.
Aliás, hoje é o último dia... vo nessa ---*--*--*--*--*---
Pretendo prever meu acaso. Pro caso de qualquer pretensão, pra prevenir.
Vou sofrer tudo antecipado. Pra quando chegar a hora que tanto temo, eu pensar: ufa.
Vou planejar todos os meus dias, escrever os afazeres na agenda, pra quando for a hora de fazer eu ficar perdida e mudar a ordem de tudo. Vou fingir com isso que sou metódica, pra eles não terem o que falar.
Vou continuar pegando a mão de outra pessoa no metrô pensando que é a sua, não fique bravo. Não adianta.
Vou tentar não ser mais eu mesma na pior parte, pra ver se eu me engano tanto que acabo virando uma outra melhor que eu.
Vou requentar o café velho e tomar pra espantar o sono. Depois vou tomar um remédio pro enjôo que o café velho deu, e vou acabar adormecendo.
Vou de novo no médico dos desparafusados querendo enganar ele e sair de lá vencida porque o problema é o mesmo sempre.
Não vou beber menos que vários litros de água por dia só porque parece compulsão.
Vou continuar indo no parque fingindo que é pra fazer esporte e sentar escondida pra ver acender a decoração de natal. Com um pouco de vergonha por passar aquele frio todo pra isso.
Aliás, hoje é o último dia... vo nessa ---*--*--*--*--*---
5.1.09
31.12.08
É um ano novo, temos outro pela frente, como pensei ou como não pensei nisso antes? Fiquei igual a eles tudo ficou mais ou menos parecido. Ano novo não tem mais cheiro de ano novo, não tem mais a avozinha, viagem de 8 horas, presente maior que eu, a casa com a clarabóia tão alta e o sótão, e o porão cheios de escuros, lotados da minha imaginação. Eu não soube fazer durar a mágica.
Errei a mão.
Mas e aí, posso preservar a menina que mora em mim ou não, tenho que mandar ela embora? Se ela for será que vai ter graça alguma coisa ainda? Será que eu não vou ter ficado igual a todos os que eu achava nublados? Se ela for será que eu aprendo a ganhar dinheiro? Ou que vou ser capaz de falar dos meus sentimentos ordenadamente? Pode ser que eu perca o medo de fantasma e que não chore mais quando chegar em casa depois de ver um vira-lata. Cada um diz uma coisa.
Ano novo não é a minha festa. Não entendo os espíritos que circulam por aí nessa época. É diferente de carnaval, que eu entendo tudo e sou dele. Fim de ano não, fica meio bagunçado demais dentro e fora. Tentei escrever as promessas pra 2009 e não saiu nada. Tudo que eu consegui fazer foi preparar um jantar pra passar com três dos seres mais importantes da minha existência. Acho que tá bom, acho que tá, tá bom sim.
Chega de pensar demais! Vamos lá esquentar a papinha, vamos brindar alguma coisa boa, algumas, muitas, pensar bem, abraçar, rir e olhar pra cima, pra ver brilhar.
Alguém um dia me disse assim: descobre logo que você já é a felicidade que você procura nos outros.
Aceito.
Errei a mão.
Mas e aí, posso preservar a menina que mora em mim ou não, tenho que mandar ela embora? Se ela for será que vai ter graça alguma coisa ainda? Será que eu não vou ter ficado igual a todos os que eu achava nublados? Se ela for será que eu aprendo a ganhar dinheiro? Ou que vou ser capaz de falar dos meus sentimentos ordenadamente? Pode ser que eu perca o medo de fantasma e que não chore mais quando chegar em casa depois de ver um vira-lata. Cada um diz uma coisa.
Ano novo não é a minha festa. Não entendo os espíritos que circulam por aí nessa época. É diferente de carnaval, que eu entendo tudo e sou dele. Fim de ano não, fica meio bagunçado demais dentro e fora. Tentei escrever as promessas pra 2009 e não saiu nada. Tudo que eu consegui fazer foi preparar um jantar pra passar com três dos seres mais importantes da minha existência. Acho que tá bom, acho que tá, tá bom sim.
Chega de pensar demais! Vamos lá esquentar a papinha, vamos brindar alguma coisa boa, algumas, muitas, pensar bem, abraçar, rir e olhar pra cima, pra ver brilhar.
Alguém um dia me disse assim: descobre logo que você já é a felicidade que você procura nos outros.
Aceito.
22.12.08
Toots & the Maytals - Sweet & Dandy
Pra combater os excessos de música natalina compulsória, em ritmos tão estapafúrdios que até em japonês eu já escutei, eu mereço esse mini alívio. Uma gracinha de som, balanço e expressão, uma coisa que pra mim é muito mais natal. Isso é muito ir de carro por 400km até a família, cair no meio da função de cozinha da ceia, encorpar a loucura feminina que vira a casa da mãe-de-todos, encher o cachorro de guloseimas, correr no mercado pra comprar ameixas, encontrar meia dúzia de conhecidos no caminho, rir dos bêbados do bloco na rua, comer um monte antes da hora, deixar pra lá o vestido escolhido há tempos porque é muito quente e me sentir tão maravilhosamente feliz.
Feliz Natal, que nada mais é que a hora de rir junto de quem a gente ama.
19.12.08
O Sujeito Indeterminado tirou o Amigo Oculto no sorteio de fim de ano da empresa. Deu de presente o dvd do "Quem somos nós?".
15.12.08
Te digo em duas ou três linhas tudo que me é mais importante. Mas prefiro não. Posso em vez disso te dizer que estou na fase crítica daquela minha fixação de mexer nos tecidos. Sem te dizer o nome que dou pra isso. Vou emendar dizendo que em casa precisamos comprar umas bolinhas de feltro pra meter embaixo das cadeiras que estão arruinando o piso, você vai me dizer que viu umas de tamanho bom ali na Bernardino. Posso não te dizer que vomitei no banheiro do aeroporto de partida e também no de chegada porque passei mal de ressaca e cansaço e com o perfume da aeromoça, e com tudo que o mundo me dá demais a saber e eu não dou conta. Não vou te contar que o zelador tem uma neta com um problema mental e que a marra dele desaparece toda quando no fim do expediente ele vai mostrar o presépio pra ela. Todo dia como se fosse a primeira vez. Não vou te dizer também que deixei cair o cachorrinho de pedra-sabão e ele quebrou o focinho, e isso me fez ficar tão incrivelmente melancólica e com raiva por ficar, porque, cara, é só um focinho de cachorro de pedra-sabão. Vou fingir que não morro de frio aqui porque afinal isso é muito pouco importante agora no verão, e também vou fingir que não doeu a maçaneta de ferro que caiu no meu pé, porque o jantar do seu aniversário estava esfriando e pra mim isso era mais importante na hora. Vou preferir que você saiba que as assombrações que eu invento estão indo embora pra eu ficar no lugar delas, eu moro aqui agora. Em vez disso tudo vou te dizer que achei um lugar que vende aqueles pasteizinhos chineses bem baratos e que eu sinto uma das 5 melhores sensações do mundo quando dobro a esquina aqui debaixo no calor seco da noite que ainda é dia, na hora que estão esquentando o forno a lenha do restaurante e os garçons de banho tomado servem a primeira cerveja pro primeiro casalzinho da noitada.
Por que tão longe dos deuses? Talvez por perguntá-lo.
E daí? O homem é o animal que pergunta. No dia em que soubermos verdadeiramente perguntar, haverá diálogo. Por enquanto, as perguntas afastam-nos vertiginosamente das respostas. Que epifania poderemos esperar se estamos nos afogando na mais falsa das liberdades, a dialética judaico-cristã? Faz-nos falta um Novum Organum de verdade, é preciso abrir de par em par as janelas e lançar tudo para a rua, mas sobretudo também é preciso lançar a janela e nós com ela. É a morte, ou sair voando. É preciso fazê-lo; é preciso fazê-lo de qualquer modo. É preciso ter coragem para entrar no meio das festas e colocar sobre a cabeça da esfuziante dona da casa um belo sapo verde, presente da noite, e assistir sem horror à vingança ds lacaios.
.......
Julio Cortázar em 'O Jogo da Amarelinha'
E daí? O homem é o animal que pergunta. No dia em que soubermos verdadeiramente perguntar, haverá diálogo. Por enquanto, as perguntas afastam-nos vertiginosamente das respostas. Que epifania poderemos esperar se estamos nos afogando na mais falsa das liberdades, a dialética judaico-cristã? Faz-nos falta um Novum Organum de verdade, é preciso abrir de par em par as janelas e lançar tudo para a rua, mas sobretudo também é preciso lançar a janela e nós com ela. É a morte, ou sair voando. É preciso fazê-lo; é preciso fazê-lo de qualquer modo. É preciso ter coragem para entrar no meio das festas e colocar sobre a cabeça da esfuziante dona da casa um belo sapo verde, presente da noite, e assistir sem horror à vingança ds lacaios.
.......
Julio Cortázar em 'O Jogo da Amarelinha'
14.12.08
Sensação de limpeza, vida cheia, casa vazia
Noite de hotel
Instrumento idiomático, conta pra pagar, permuta, galinha cozida, fio de barbante podre, miado, um esgoto que corre desde o chão até o céu mais alto mais azul mais cinza morno, tão quente aqui chega perto vem ver esse pedaço da cortina que se desfez. Tomada macho, porca fêmea.
Não consigo copiar e colar nesse seu computador.
Ao céu do céu pro céu pro chão, bate e volta. amarelinha que termina no 10, não tem céu, não sente, é só número, what's the point?
You got to switch the mode.
Uma cadeira não pode ser mais importante que ela mesma desenhada.
You got to select. Isso vai, isso fica.
Não, mas um abajurzinho é útil pra caramba.
Take sides.
Whoever said we wash away with the rain.
Noite de hotel
Instrumento idiomático, conta pra pagar, permuta, galinha cozida, fio de barbante podre, miado, um esgoto que corre desde o chão até o céu mais alto mais azul mais cinza morno, tão quente aqui chega perto vem ver esse pedaço da cortina que se desfez. Tomada macho, porca fêmea.
Não consigo copiar e colar nesse seu computador.
Ao céu do céu pro céu pro chão, bate e volta. amarelinha que termina no 10, não tem céu, não sente, é só número, what's the point?
You got to switch the mode.
Uma cadeira não pode ser mais importante que ela mesma desenhada.
You got to select. Isso vai, isso fica.
Não, mas um abajurzinho é útil pra caramba.
Take sides.
Whoever said we wash away with the rain.
10.12.08
4.12.08
Alguém disse uma vez que o esporte é a saída dos sem criatividade. Não é pra tanto, mas entendi e concordei em parte. Achei por aí um pensamento que se conecta com isso e passa pelo que eu queria dizer, mas não sabia como. O cara que pensou o que eu queria pensar é o Noam Chomsky, num pedacinho do livro Para Entender o Poder, que chama "Esporte para o público". Tô sem ele aqui, outra hora boto um trechinho.
Antes que alguém, qualquer alguém, principalmente alguém que mora lá em casa me escandalize aqui, vou deixar claro que acho lindo o que esse povo faz, levando o corpo aos extremos mais extremos. Eu disse CORPO, o que, é claro, deixa de fora coisas sem sentido como fórmula 1 e paintball.
O que eu não entendo é esse frenesi todo, um sofrimento, uma falta de espaço pra pensar em outras coisas, pra exercitar a cabeça, pra inventar. Não entendo levar tão a sério. Programa que reúne um monte de macho pra discutir futebol com uma fuça séria de quem tá decidindo o destino do planeta não me entra na cabeça. Não entendo o bonde juntar o técnico do time no aeroporto. Não entendo eu querer comprar uma camiseta simples, preta, branca, com a cruz de malta e ter que OFICIALMENTE levar um reebok bordado. É que a cruz não é mais parte da brincadeira, ela agora é propriedade da marca. Entendi.
Tô dizendo é que não admiro o esporte como negócio, obrigação, como papo de todo elevador, como presença dominante de todo canto, como condicionador de eventos da manhã de domingo. Aprecio menos ainda como entidade que tomou conta da possibilidade dessa massaroca de gente parar e pensar. Pensar sozinho. Em outras coisas, no mundo real, criar um lance, fazer um esporte (!), pensar no que continua acontecendo enquanto a partida está rolando, pensar inclusive que isso pode muito bem ser um agradinho pra que ele não pense sobre todo o resto.
Acontece o mesmo com as novelas. Em outra escala, em outro nicho.
Pensa aí e me fala.
Antes que alguém, qualquer alguém, principalmente alguém que mora lá em casa me escandalize aqui, vou deixar claro que acho lindo o que esse povo faz, levando o corpo aos extremos mais extremos. Eu disse CORPO, o que, é claro, deixa de fora coisas sem sentido como fórmula 1 e paintball.
O que eu não entendo é esse frenesi todo, um sofrimento, uma falta de espaço pra pensar em outras coisas, pra exercitar a cabeça, pra inventar. Não entendo levar tão a sério. Programa que reúne um monte de macho pra discutir futebol com uma fuça séria de quem tá decidindo o destino do planeta não me entra na cabeça. Não entendo o bonde juntar o técnico do time no aeroporto. Não entendo eu querer comprar uma camiseta simples, preta, branca, com a cruz de malta e ter que OFICIALMENTE levar um reebok bordado. É que a cruz não é mais parte da brincadeira, ela agora é propriedade da marca. Entendi.
Tô dizendo é que não admiro o esporte como negócio, obrigação, como papo de todo elevador, como presença dominante de todo canto, como condicionador de eventos da manhã de domingo. Aprecio menos ainda como entidade que tomou conta da possibilidade dessa massaroca de gente parar e pensar. Pensar sozinho. Em outras coisas, no mundo real, criar um lance, fazer um esporte (!), pensar no que continua acontecendo enquanto a partida está rolando, pensar inclusive que isso pode muito bem ser um agradinho pra que ele não pense sobre todo o resto.
Acontece o mesmo com as novelas. Em outra escala, em outro nicho.
Pensa aí e me fala.
23.11.08
Foi assim. Ele se ajoelhou diante da cama na minha frente, quis me desenhar, bom, quis desenhar qualquer coisa mas começou a me desenhar. Ele não desenha normalmente. Ele pensa imagens, associações felizes e perfeitas, me fazem rir, pensa música. Sobretudo música, sempre.
Ele quis saber se parece o Doug, perguntou duas vezes com medo de descobrir que é um sujeito ok, mas padrão e sem fantasia. Respondi que não, porque não, de fato não. Pode parecer, quem sabe alguém de fora ache (alguém fora dele e fora de mim). Também não conheço o Doug tão bem assim, quem sabe me enganei pela aparência, como alguém de fora.
No fundo e não só lá mas em toda sua extensão e área ele é um menino de jardim e do play, da sessão da tarde na sala da avó, pensante alerta assustado maravilhado aprendendo a encontrar seu assento no mundo, não um assento fixo e parado mas só como modo de dizer o seu lugar, o ponto onde ele se encontra em si mesmo dando-se conta: ESTE SOU EU - feito disso tudo que vivi, do que está por vir do que como bebo do que amo das mulheres que me apaixonam dos homens que me projetam dos elementos naturais, alguns mais que outros, de você. Eu também crio, eu também invento eu sonho me queimo me molho, choro, me dói tudo, mas meu lugar é meu, é este, em transformação em construção até o último dia.
Ele quis saber se parece o Doug, perguntou duas vezes com medo de descobrir que é um sujeito ok, mas padrão e sem fantasia. Respondi que não, porque não, de fato não. Pode parecer, quem sabe alguém de fora ache (alguém fora dele e fora de mim). Também não conheço o Doug tão bem assim, quem sabe me enganei pela aparência, como alguém de fora.
No fundo e não só lá mas em toda sua extensão e área ele é um menino de jardim e do play, da sessão da tarde na sala da avó, pensante alerta assustado maravilhado aprendendo a encontrar seu assento no mundo, não um assento fixo e parado mas só como modo de dizer o seu lugar, o ponto onde ele se encontra em si mesmo dando-se conta: ESTE SOU EU - feito disso tudo que vivi, do que está por vir do que como bebo do que amo das mulheres que me apaixonam dos homens que me projetam dos elementos naturais, alguns mais que outros, de você. Eu também crio, eu também invento eu sonho me queimo me molho, choro, me dói tudo, mas meu lugar é meu, é este, em transformação em construção até o último dia.
14.11.08
sexxta feira
13.11.08
12.11.08
11.11.08
V.0
mãe, sonhei com a gente nadando com jacaré. lá debaixo do viaduto, lá no rio comprido.
não quero trabalhar hoje não, mãe.
filha você está v.0. física. lembra?
não lembra nada tá sempre com sono. dá uma volta uma espreguiçada toma um café.
tô tomando muito leite.
porque?
não sei, eu gosto. você também gosta.
é, vou deixar sempre a colcha muito esticada, assim o cachorro não faz ninho. arrumei sua cama, mas não dei nada pra ninguém. ela fica reticente, minha ciumentinha.
tão tá mãe. no posto de gasolina tem um café de máquina eu adoro.
vai, filha. depois você engrena.
não vai no rio comprido não, tem jacaré.
tá bom, vou na quinta.
tá.
beijo bom dia
beijo bom dia
beijo bom dia
beijo bom dia
beijo bom dia
não quero trabalhar hoje não, mãe.
filha você está v.0. física. lembra?
não lembra nada tá sempre com sono. dá uma volta uma espreguiçada toma um café.
tô tomando muito leite.
porque?
não sei, eu gosto. você também gosta.
é, vou deixar sempre a colcha muito esticada, assim o cachorro não faz ninho. arrumei sua cama, mas não dei nada pra ninguém. ela fica reticente, minha ciumentinha.
tão tá mãe. no posto de gasolina tem um café de máquina eu adoro.
vai, filha. depois você engrena.
não vai no rio comprido não, tem jacaré.
tá bom, vou na quinta.
tá.
beijo bom dia
beijo bom dia
beijo bom dia
beijo bom dia
beijo bom dia
10.11.08
E se eu acordar uma hora
no meio da estrada no meio da noite
e se estiver ventando muito
e o porteiro estiver cochilando
e se eu não conseguir acordá-lo
daquele meu jeito de acordar porteiro
curvada pra frente, distante meio metro, chamando baixinho:
'Seu Antônio. Ô seu Antônio!', com medo de perturbar o sono dele.
no meio da estrada no meio da noite
e se estiver ventando muito
e o porteiro estiver cochilando
e se eu não conseguir acordá-lo
daquele meu jeito de acordar porteiro
curvada pra frente, distante meio metro, chamando baixinho:
'Seu Antônio. Ô seu Antônio!', com medo de perturbar o sono dele.
7.11.08
6.11.08

A tal mulher leu um livro, ela pensa em pôr a culpa no autor. Não no autor, mas na história, que decerto obrigou o ator a contá-la, ela sabe, a história é muito maior que ele, o cara não teve muita escolha. Ela sabe também que não dá pra simplesmente culpar o livro porque foi ela que o procurou. Deu com os olhos nele num dia de total inferno e olhou só as figuras, menos aquela mais terrível.
Aí ela comprou o livro e ficou vendida. Não fazia mais nada do dia que não fosse pensando na hora que chegaria de noite, de ler o livro. Dormia tarde, ficava na cama em horas que não se fica. Se arrasou. Leu muitas vezes as passagens impressionantes, marcou as pontas das páginas com dobras menores ou maiores conforme o assombro. Viu a figura antes de chegar lá na história. Ficou chocada, ela criou personagens nos personagens, pensou que eles fossem o bem.
Ela contou sobre o livro pros outros, sem ousar dizer o nome do sujeito. Quis mandar pelo correio o livro pro marido, mas o correio fechava cedo e logo depois ela se deu conta que não devia mandar nunca.
No dia seguinte procurou de leve o nome do misterioso no google. Textos e imagens. Ele era medonho, mas pequeno e tão plástico que ela não se assustou. Na família que acontecia atrás dela, pai pira com irmã que pira com pai, quebra copo na cozinha, baixa uma sauna sufocante na sala na tarde de domingo. Assustada ela fecha tudo e desata com suas rezinhas.
Semanas de sonhos violentos, falados, suor, cansaço quando ela acorda. Ela não sabe se é coincidência. Não sabe o quanto disso é isso, mas acha que é ela mesma que procura.
Ela tá cansada, quer tirar férias dela mesma.
A tua existência é retalhada e sinuosa pros outros mas você sabe no profundo de si mesma mesmo sem saber porque, que procura as linhas retas, cantos arredondados, quadradinhos preenchidos e sabe como é prazeroso quando consegue desenhar seus módulos desordenados, com todas as lacunas mal preenchidas, quando não sabe ler sua própria escrita porque o r e o n são muito parecidos, quando não separa as sílabas como se deve e quando escreve errado pra ci mesma porque você, você, você é tão calculada pro mundo, pensa em tudo, por você mesma e pelos outros e antes dos outros, antes que eles pensem, antes mesmo deles acordarem e você sabe como cansa, pensar cansa, você pessoa, quer sumir de si dele dela, do de cima e do de baixo, quer só sumir e não vigiar o e-mail só podendo existir igual a um cachorro, a quem foi dada só somente só essa magnífica tarefa.
precisa-se faxineira
me empresta a tua?
sera que ela tem um dia livre? ela é boa? confias? custa
quantos? tu tem empregadas? cozinha? bem? quebra tudo? chega na
hora? fala portugues? custa quanto?
se for gata nao quero.
me empresta a tua?
sera que ela tem um dia livre? ela é boa? confias? custa
quantos? tu tem empregadas? cozinha? bem? quebra tudo? chega na
hora? fala portugues? custa quanto?
se for gata nao quero.
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